Crítica: Anjos da Lei 2


Caso fosse analisado friamente, Anjos da Lei 2 seria um filme fraco com uma estrutura problemática, uma vez que opta por repetir a fórmula do anterior, sem entregar nada necessariamente novo. Isso seria um problema, se o longa de Phil Lord e Christopher Miller (Uma Aventura Lego) não aceitasse e brincasse com a sua própria previsibilidade, entregando um resultado que pode não ser tão inventivo quanto o primeiro, mas que continua sendo tão engraçado quanto.

Recheado de piadas metalinguísticas, o roteiro mostra Jenko (Channing Tatum) e Schmidt (Jonah Hill) infiltrados numa faculdade, procurando os responsáveis por uma nova droga que se popularizou no campus – numa investigação “exatamente igual à anterior”, como alguém faz questão de apontar. E com o sucesso do caso (filme) anterior, o orçamento da investigação (produção) aumentou, uma vez que o departamento (estúdio) espera que o dobro de investimento (orçamento) gere o dobro de resultados (bilheteria).

Aliás, a ideia da metalinguagem está presente desde o início da projeção, quando aparecem na tela os dizeres “Anteriormente em Anjos da Lei”, algo que remete, inclusive, à série de TV na qual o longa se baseia. Não só isso, mas esse conceito é exponenciado numa cena em que os dois personagens estão (novamente), e uma tela dividida mostra as diferentes reações que cada um tem à droga; recurso esse que eles não só reconhecem que está lá como ainda interagem com ele (com um tentando atravessar para a tela do outro).

Colocando os protagonistas em situações opostas em relação ao original (Jenko voltou a ser popular e Schmidt se tornou deslocado), o texto aproveita essa situação para tentar desenvolver melhor o relacionamento dos dois. E é aí que ele falha. Exagerando demais nessa ideia de “relacionamento”, o roteiro passa a retratar os dois como um casal em crise, que discute, briga, faz terapia e até considera “investigar outras pessoas”. Com isso, uma piada que deveria ser subentendida é extrapolada a ponto de perder a graça.

Mesmo assim, ainda é nos dois atores principais que reside a maior qualidade do filme, e eles continuam hilários. Da mesma forma, Lord e Miller utilizam bem esse “orçamento maior” para criar situações ainda mais absurdas, que vão desde alguém sendo atacado por um polvo até uma perseguição pelo campus que destrói tudo em seu caminho (inclusive “algumas coisas muito caras”). Ao final, Anjos da Lei 2 pode pecar pela falta de originalidade, mas consegue contornar esse fato de maneira louvável, transformando essa limitação em um recurso narrativo que funciona a seu favor – algo que, por exemplo, Se Beber, Não Case! 2 não conseguiu.

Anjos da Lei (22 Jump Street)
Estados Unidos, 2014 – 112 min.
Direção: Phil Lord e Chris Miller. | Roteiro: Michael Bacall, Oren Uziel, Rodney Rothman.
Elenco: Channing Tatum, Jonah Hill, Ice Cube, Amber Stevens, Jillian Bell, Peter Stormare, Nick Offerman.