Crítica: Serra Pelada


Diretor do genial O Cheiro do Ralo (2006), Heitor Dhalia retorna às telas com um projeto genuinamente nacional, após uma estreia desastrosa em Hollywood, onde comandou o suspense 12 Horas, ano passado. A experiência trabalhando em terras gringas serviu para mostrar ao pernambucano o caminho mais prolífero para o nosso cinema: filmes de gênero com apelo internacional, tendo como pano de fundo situações e cenários históricos tipicamente brasileiros. Serra Pelada segue esta fórmula, utilizando a febre do ouro que assolou o país no final dos anos 1970 e início dos 80, com mote para um magnífico “western amazônico”.

Na trama, acompanhamos a jornada de Juliano (Juliano Cazarré, de Febre do Rato) e Joaquim (Júlio Andrade, Gonzaga – De Pai para Filho), amigos de infância que, em busca de ascensão social, decidem partir de São Paulo rumo à Floresta Amazônica em busca do sonho do ouro. Ao chegar a Serra Pelada no Pará, descobrem que a ilusão do enriquecimento rápido tem um preço caro. A medida que o tempo passa, o implacável garimpo, que tem suas próprias leis, vai mudando drasticamente a vida dos dois jovens, colocando à prova sua amizade.

Serra Pelada é uma superprodução que impressiona, principalmente, pela reconstrução do garimpo. Com a ajuda da computação gráfica, imagens de arquivos e filmagens com 1,6 mil figurantes (no terreno de uma mineradora localizada em Mogi das Cruzes), Dhalia e sua equipe recriaram com esmero a maior mina a céu aberto do mundo, local que chegou a receber 100 mil homens, a maior concentração de trabalho manual desde as pirâmides egípcias. A direção de arte é igualmente detalhista, e reproduz fielmente figurinos e cenários da época. Outro ponto interessante do longa é sua trilha sonora, repleta de “brega hits” das décadas de 70/80 e músicas típicas da região.

No entanto, a alma do filme é mesmo o seu ótimo elenco. Cazarré e Andrade entregam performances convincentes, tornando o espectador cúmplice de seus dramas e motivações. Entre os coadjuvantes, destaque para Matheus Nachtergaele vivendo o Coronel Carvalho, um latifundiário do garimpo, Sophie Charlotte como a prostituta Teresa, e Wagner Moura, interpretando o medonho vilão Lindo Rico. O baiano, que é um dos produtores do filme, estava escalado para viver um dos protagonistas, mas foi obrigado a declinar por conta da agenda cheia com projetos no exterior. Mesmo “relegado” a um papel menor, ele é responsável pelos diálogos mais bem humorados da película, arrancando gargalhadas do público com seu humor ácido e cruel.

Se há algo destoante na fita de Dhalia é o excesso de narração em off. Por vezes soando didático demais ou lembrando o Professor Tibúrcio, o artifício menospreza a inteligência da plateia com suas explicações dispensáveis. Felizmente, não compromete o ritmo e a fluidez desta obra memorável. Registro visual de um dos mais curiosos e marcantes episódios do Brasil recente, Serra Pelada é um ótimo programa tanto para quem gosta de filmes com embasamento histórico, quanto quem curte tramas bem contadas.

(4/5)
Serra Pelada
Brasil, 2013 – 120 min.
Direção: Heitor Dhalia. | Roteiro: Vera Egito e Heitor Dhalia.
Elenco: Juliano Cazarre, Júlio Andrade, Wagner Moura, Sophie Charlotte, Matheus Nachtergaele.