Crítica: Kingsman – Serviço Secreto


No início de Kingsman – Serviço Secreto, novo trabalho do talentoso cineasta Matthew Vaughn (X-Men: Primeira Classe), é mostrada uma tarefa de invasão à uma fortaleza no Oriente Médio. Em meio a explosões, pedaços do prédio são jogados na direção do público, formando (como peças de lego) os créditos iniciais do longa. Essa mistura de ação e comédia, somada a um clima nostálgico das aventuras de espionagem das décadas de 1970 e 1980, perdura durante toda a projeção. E assim como os filmes clássicos de James Bond que busca homenagear, Kingsman apresenta algumas (divertidas) incongruências narrativas, inseridas em meio a uma temática metalinguística que não só permite esses “equívocos”, como ainda faz piada em cima deles. E o resultado é incrível.

Escrito pelo próprio Vaughn e por Jane Goldman (X-Men: Dias de um Futuro Esquecido), com base numa história em quadrinhos de Mark Millar e Dave Gibbons, o roteiro acompanha Eggsy (Taron Egerton), um jovem problemático que vive com a mãe, a irmã pequena e o padrasto idiota e violento, e passa os dias nas ruas de Londres se envolvendo em confusões. Certo dia, ele é abordado pelo misterioso Galahad (Colin Firth), que o convida a fazer parte da Kingsman, uma agência secreta e independente de espionagem. Então, Eggsy inicia um rigoroso treinamento ao lado da elite britânica. Ao mesmo tempo, o bizarro bilionário da informática Valentine (Samuel L. Jackson) coloca em prática o seu plano para “salvar o mundo”.

A ideia do espião britânico elegante e letal está intrínseca na cultura do país (e do mundo) por conta do icônico agente 007. Sabendo disso, o filme toma a decisão acertada de se apresentar como uma homenagem ao subgênero da espionagem, e mais especificamente, às histórias criadas por Ian Fleming. Desde os gadgets absurdos – como o relógio que provoca amnésia, o isqueiro-bomba e o guarda-chuva à prova de balas –, os vilões estranhos (com lâminas no lugar das pernas), as viagens ao redor do mundo e os esconderijos em lugares exóticos, tudo em Kingsman – Serviço Secreto grita 007. E enquanto essa ideia de metalinguagem diverte o espectador mais atento, a menção direta a James Bond e aos “filmes antigos” surge como um exagero, uma tentativa desnecessária de “explicar a piada”, sendo que, nesse caso, as sutilezas eram muito mais eficazes – como a menção do telefone no sapato.

Mesmo assim, esses são defeitos pequenos, e que não atrapalham a apreciação do longa. Kingsman diverte, e muito, principalmente por causa dos seus atores. Enquanto a aparente inexpressividade de Egerton surge a seu favor, ao separá-lo dos demais colegas de elenco, o sempre competente Samuel L. Jackson entrega um ar de infantilidade ao seu vilão, através do recurso (batido, mas bem utilizado) da língua presa. Mas o grande destaque é, sem dúvidas, Colin Firth. O ator surpreende como um herói de ação, capaz de realizar as coreografias de luta mais insanas ao mesmo tempo em que mantém a sua elegância característica.

Mantendo algumas das suas características mais marcantes, como o uso da violência extrema (muitas vezes embalada por música pop) e um ritmo acelerado, Matthew Vaughn cria sequências de ação memoráveis, como uma inacreditável luta dentro da igreja, e um clímax tenso, com diversas ações acontecendo em paralelo (outra qualidade narrativa sua). Mais do que isso, o diretor ainda mantém o bom humor inglês, fazendo graça com as situações mais absurdas (não vou dar nenhum spoiler, mas não tem como perder uma cena envolvendo fogos de artifício).

O crítico Roger Ebert costumava dizer que não importa sobre o que é um filme, o que importa é como ele é sobre aquilo. De fato, o sobre de Kingsman – Serviço Secreto não tem nada de mais. É uma trama comum, já contada várias vezes e de diversas maneiras distintas. Mas é o seu como que é um diferencial. E é isto que fez deste um excelente longa de ação.

Kingsman – Serviço Secreto (Kingsman: Secret Service)
Reino Unido, 2015 – 125 min.
Direção: Matthew Vaughn.| Roteiro: Jane Goldman e Matthew Vaughn.
Elenco: Colin Firth, Taron Egerton, Samuel L. Jackson, Mark Strong, Mark Hamill e Michael Caine.

AVALIAÇÃO POR CATEGORIA
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Daniel Medeiros é graduado em Cinema e Vídeo e formado nos cursos de Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica; e Jornalismo Cinematográfico - Crítica, Reportagem e Coberturas de Festivais. É membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE) e pesquisador sobre cinema de terror.