Crítica: Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância


Curiosamente, os dois filmes que lideram a disputa pelo Oscar desse ano trabalham com a questão do tempo. Porém, ao contrário de Boyhood – Da Infância à Juventude, que busca explicitar o tempo, tornando-o um personagem da sua história, Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) procura esconder a passagem temporal, falseando-a em meio a um (falso) plano-sequência, causando assim uma (falsa) sensação de continuidade. Trata-se, portanto, de uma abordagem totalmente diferente, mas que também resulta em um longa excepcional.

A trama acompanha Riggan Thomson, um ator decadente, conhecido por ter interpretado um super-herói na década de 1990 (e convenientemente vivido por Michael Keaton), que tenta reerguer a sua carreira adaptando para o teatro uma obra do escritor Raymond Carver. Durante os ensaios, um dos atores coadjuvantes sofre um acidente e é substituído pelo talentoso e problemático Mike Shiner (Edward Norton). Porém, a presença de Shiner faz com que Thomson se depare com a sua própria limitação como artista, ao mesmo tempo em que enfrenta problemas de relacionamento com a filha (Emma Stone) e é desafiado pela voz da sua consciência, que não parece muito feliz com as suas escolhas de carreira.

A dinâmica entre os dois personagens principais é o ponto determinante da trama. Shiner e Thomson surgem como sujeitos ao mesmo tempo opostos e complementares. Enquanto o primeiro carrega uma arrogância inerente ao seu talento, o segundo, em meio a sua visível mediocridade, se coloca num patamar inalcançável (e existente), ignorando tudo e todos à sua volta. E não é por acaso que Thomson se sinta ameaçado por Shiner, afinal, o colega é, como seu próprio nome sugere, “aquele que brilha”. E na realidade autocentrada e fantasiosa que é a rotina de Thomson, não existe lugar para uma estrela coadjuvante que brilhe tanto – ou até mais – do que o verdadeiro astro.

É interessante perceber como realidade e ficção andam juntas durante toda a projeção, ora mantendo-se separadas (com os super-poderes do protagonista, que funcionam quando ninguém está olhando), e ora se misturando, como quando uma cena típica de pesadelo (ficar nu em público) passa a acontecer na vida real. Da mesma maneira, o roteiro ainda é recheado de citações metalinguísticas, além de apresentar uma discussão sobre o valor da arte e o papel da crítica.

Mostrando-se um excelente aprendiz de Alfred Hitchcock, e do que ele fez em Festim Diabólico, o cineasta Alejandro González Iñárritu (Babel) copia algumas das ideias do mestre, como falsear um corte em meio a uma cena escura, ao mesmo tempo em que cria uma amplitude narrativa (resultante da evolução tecnológica). Com isso, a câmera de Iñárritu pode passear por todo o cenário, sair para a rua, ou mesmo filmar de frente para um espelho sem que um reflexo ou uma sombra atrapalhe o take. Porém, mais do que um recurso visual impecável, o plano-sequência é utilizado no filme com um proposito especifico, que é exaltar a vida frenética de Thomson, o que, combinado com a trilha sonora composta apenas de baterias, funciona perfeitamente bem.

E ainda que eu prefira a abordagem sensível que Richard Linklater deu a Boyhood, é preciso admitir que Birdman é um complexo exercício narrativo e estrutural, além de um estudo de personagem intrigante. E caso ele seja o vencedor do Oscar de Melhor Filme, será uma escolha mais do que merecida.

Birdman (Birdman)
Estados Unidos, 2014 – 119 min.
Direção: Alejandro González Iñárritu.
Roteiro: Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris, Armando Bo e Alejandro González Iñárritu.
Elenco: Michael Keaton, Edward Norton, Emma Stone, Zach Galifianakis, Naomi Watts, Andrea Riseborough.