Crítica: 47 Ronins


“Conhecer a história dos 47 Ronins é conhecer a história do Japão” afirma a narração no início de 47 Ronins. E por mais que essa informação seja verdadeira dentro do universo narrativo proposto pelo filme – que procura respeitar as tradições nipônicas –, é inegável a forte influência ocidental que o longa sofre (onde tudo se preza pelo espetáculo), algo que, consequentemente, prejudica o seu resultado.

Escrito por Chris Morgan (Velozes & Furiosos 6) e Hossein Amini (Branca de Neve e o Caçador), o roteiro acompanha Kai (Keanu Reeves, da trilogia Matrix), um forasteiro que foi abandonado quando criança num antigo vilarejo japonês e foi criado como um “mestiço”, alguém que é visto com desdém pelos nativos e que nunca pode se tornar um verdadeiro samurai, apesar de demonstrar mais talento com a espada do que muitos dos protetores do local. Quando o mestre do lugar é assassinado, os samurais que o serviam viram ronins – samurais sem mestre –, e elaboram um plano de vingança que vai trazer justiça de volta ao vilarejo.

É visível a intenção dos realizadores de prestarem uma homenagem à cultura japonesa, principalmente por meio da caprichada direção de arte, que recria o Japão feudal nos seus mínimos detalhes. É interessante também notar como certas tradições que hoje são vistas com estranhamento, como o seppuku (suicídio pelas próprias mãos), não só aparecem de maneira orgânica, como ainda tem grande importância narrativa.

Além disso, numa mitologia tão rica quanto à do Japão, cabe perfeitamente inserir elementos fantásticos – o dragão japonês, por exemplo. O problema é que o filme parece querer forçar demais uma temática sobrenatural, com monstros de oito olhos e criaturas meio humano meio anfíbio, que surgem soltos na história, em nenhum momento apresentam uma justificativa aceitável para a sua existência dentro daquele universo, e prejudicam a própria mitologia que o longa se propõe a homenagear.

Igualmente problemática é a tentativa do roteiro de criar uma subtrama romântica entre o protagonista e a filha do mestre, algo que não funciona em parte pelos diálogos clichês (“Eu sempre te amarei. Mas você tem o seu lugar e eu tenho o meu”), mas também (e talvez principalmente) pela atuação sempre canastrona de Keanu Reeves, que em nenhum instante convence como um jovem apaixonado.

Da mesma maneira, o desenvolvimento de alguns personagens parece sem foco, como é a caso da vilã, interpretada por Rinko Kikuchi (de Círculo de Fogo), que inicialmente aparece manipulando o ganancioso Kira (Tadanobu Asano, de Thor: O Mundo Sombrio), dando a entender que ela é a verdadeira mente por trás das ações dele, e depois parece uma mulher ciumenta e histérica, que coloca todo o plano a perder quando tenta matar a jovem Mika (Ko Shibasaki, de Uma Chamada Perdida), peça essencial para que o plano deles funcione.

E mesmo que a direção do estreante Carl Rinsch até funcione em certos momentos, como no ataque silencioso e muito bem orquestrado dos ronins durante o clímax, confesso que fiquei insatisfeito ao perceber que o cineasta opta por abandonar diversos personagens nessa sequência e se concentrar apenas em duas lutas, sendo que, ao final, quando é revelada a dimensão daquela batalha, fica parecendo uma oportunidade desperdiçada não mostrar tudo aquilo que acontecia simultaneamente.

Ainda assim, 47 Ronins merece destaque pela sua conclusão, que se revela totalmente anti-hollywoodiana e incrivelmente corajosa. Entrar em mais detalhes seria estragar o entretenimento, mas vale dizer que o final, sem dúvidas, consegue salvar o filme de um desastre maior.

(2.5/5)
47 Ronins (47 Ronin)
Estados Unidos, 2013 – 127 min.
Direção: Carl Erik Rinsch. | Roteiro: Chris Morgan e Hossein Amini.
Elenco: Keanu Reeves, Tadanobu Asano, Rinko Kikuchi, Hiroyuki Sanada e Ko Shibasaki.