Crítica: As Sessões


Produções como Intocáveis ou este As Sessões desarmam com um estalo de dedos os patrulheiros do politicamente correto. Basta para isto que o protagonista portador de uma deficiência ou doença incapacitante seja o primeiro a aceitar a condição e, sem um resquício de autocomiseração, derrube o muro do preconceito alterando, consequentemente, a percepção daqueles ao redor. Melhora mais quando o faz com muito bom humor, como é o caso daquele que é o maior sucesso de bilheteria da França, ou então com doçura e suavidade como nesta história real sobre o poeta Mark O’Brien que decidiu perder a virgindade após mais de 30 anos confinados a uma maca, vítima da poliomielite aos seis anos de idade.

Adaptado por Ben Lewin, que também dirige, a partir de um artigo escrito pelo próprio O’Brien, o roteiro nada mais faz do que reaproveitar a base de uma comédia romântica conferindo, porém, um tom adulto e menos clichê e substituindo os jogadores sem desvirtuar os esteriótipos nos quais eles se encaixam. O inseguro apaixonado agora tem os porquês de ser assim, pois é visto pelo sexo oposto de todas as maneiras, menos com interesse sexual, e ainda está preso ao tabu da igreja; o melhor amigo e incentivador agora veste a batina do padre Brendan (William H. Macy), um hippie com cabelos compridos e ocasionalmente uma fita amarrada na cabeça; e finalmente, o objeto de afeição do protagonista, a terapeuta sexual Cheryl (Helen Hunt), é tão desinibida e ousada quanto se poderia esperar nas tais sessões do título em que ela tenta fazer com que Mark atinja a consciência corporal e a masculinidade plena através de exercícios sexuais.

Mas o que torna esse trabalho verdadeiramente especial, além dos inusitados protagonistas, é a forma sutil com que Lewin introduz os previsíveis pontos de virada, sobretudo Mark apaixonar-se por Cheryl. Falta-lhe na verdade, o afã de cumprir os estágios que já estamos carecas de conhecer dos filmes do gênero e sem esta urgência, ele pode desenvolver naturalmente uma mútua aproximação cega à doença mas consciente de que o relacionamento é improvável, já que Cheryl é uma mãe de família tipicamente norte-americana. Definidos desde cedo o conflito, a incerteza de sua superação e o escasso período de tempo de convivência de só seis sessões, nada impede entretanto de ambos preencherem as lacunas na vida um do outro com um senso de humor agridoce e coerente à meia-idade dos personagens. Neste sentido, o roteiro tem um humor autodepreciativo jamais ofensivo misturado às apimentadas confissões no átrio da igreja e belos momentos em que Mark relembra frustrações amorosas sempre com um lirismo de palavras mais do que apropriado para o poeta.

O que inevitavelmente leva à grande atuação de John Hawkes, injustamente esnobado pelo Oscar, expressando múltiplos sentimentos, como decepção, alegria, nostalgia, excitação e curiosidade, só com singelas mudanças na inflexão da voz fraquejante. Também deve-se destacar o visível desafio físico que deve ter sido permanecer o tempo inteiro curvado preso à cama ou então ao pulmão de aço artificial, com a palma da mão direita virada para cima e a da mão esquerda rija presa ao lado do corpo, em uma composição (literalmente!) disciplinada e convincente. Enquanto isso, Helen Hunt chama a atenção mais por causa da corajosa entrega à personagem, que atravessa boa parte da produção nua, do que por sua atuação, prejudicada por cirurgias plásticas e aplicações de botox que lhe retiraram muito da expressividade facial e a tornaram uma estranha versão de uma barbie cinquentona. Ainda assim, a atriz é hábil em retratar na voz tenra e no toque carinhoso e gentil a cumplicidade construída entre ela e Mark.

Apresentando uma boa e discreta direção de arte, que afixa à distância o diploma de Cheryl e contrasta as figuras religiosas com o que Mark persegue com afinco justificando um dos aspectos da sua personalidade, e uma montagem excelente, sobretudo no raccord que associa o pulmão de aço a um certo objeto de madeira, As Sessões é um romance adulto, gostoso, leve e libertador.

(4/5)
As Sessões (The Sessions)
Estados Unidos, 2012 – 95 min.
Direção e Roteiro: Ben Lewin.
Elenco: John Hawkes, Helen Hunt, William H. Macy, Moon Bloodgood, Annika Marks.