Crítica: A Última Casa da Rua


Decididas a começar uma vida nova após terem sido abandonadas pelo marido/pai, Sarah e a filha Elissa vão morar em uma daquelas cidadezinhas genéricas e pacatas bem típicas dos filmes de suspense. Uma mudança que deveria fazer-lhes bem e estreitar os laços fraternos, até a vizinhança se revelar um lugar não tão seguro quanto se imaginava. Culpa da última casa da rua do título, onde a traumatizada Carrie Anne matou seus pais há quatro anos durante um surto psicótico, transformando as redondezas em um pesadelo imobiliário e, de quebra, ajudando a diminuir drasticamente o aluguel pago pela família.

Partindo de uma premissa reciclada tão aterrorizante e surpreendente quanto a pegadinha da fantasma no elevador do Sílvio Santos, o roteiro escrito por David Loucka – divirto-me com este nome – perde tempo precioso nas discussões requentadas entre mãe (Elisabeth Shue) e filha (Jennifer Lawrence) ao invés de proporcionar um clima de tensão e insegurança. A luz que se acende na casa do lado e a lenda urbana contada sobre Carrie Anne rapidamente dão lugar a diálogos embaraçosos, em que Sarah age como a mãe super-protetora (“não quero que ela escolha errado como eu fiz”, revela ao policial local) e Elissa, como a adolescente rebelde (“a minha mãe não larga do meu pé”), esteriótipos que em um primeiro momento ninguém atribuiria às personagens.

Mas não pense que a narrativa demonstrava alguma inspiração em provocar sustos, ou melhor “sustos”, pois o diretor Mark Tonderai parece associar à palavra o surgimento inesperado de uma amiga pela porta da frente destrancada e a imagem de um vulto se movimentando no bosque defronte da casa. Tudo isso de mãos firmemente dadas com a trilha sonora que torna mais fácil a missão de antecipar o que vem em seguida, se é que isto faz alguma diferença.

Sem disfarçar a sua completa falta de criatividade, a narrativa ainda apresenta Ryan (Max Thieriot), o irmão mais velho de Carrie Anne e que na época do massacre tinha sido enviado pelos pais para morar com a tia. Único residente da tal casa, Ryan é o protótipo do rapaz sobre o qual paira a suspeita dos demais habitantes e o seu jeito tímido, fruto do trauma familiar, não o ajuda em nada a formar uma imagem diferente. Mas aí Elissa começa a viver um romance adolescente descartável com ele e, com um jeito enxerido de quem fuça as coisas na casa alheia sem ser convidada, descobre uma série de segredos enterrados no passado.

Porém o que mais assusta não é o clímax, executando com pouca eficiência, e sim o meu esforço em tentar ler nas entrelinhas de um produto cujo propósito é bem claro: rever Elisabeth Shue, que há uns 20 anos seria a candidata perfeita ao papel principal, e especialmente, capitalizar a fama de Jennifer Lawrence, indicada ao Oscar e estrela da nova franquia dos X-Men e da adaptação de Jogos Vorazes. Sem encher os olhos na pele de Elissa, Jennifer atua melhor quando está cantando e dedilhando no seu violão, pois no restante do tempo está ocupada demais seguindo à risca a cartilha do gênero, com direito a comuns momentos de patetice em que deveria agir de uma forma (ex: fugir) ao invés de outra (ex: permanecer parada).

Contando ainda com uma reviravolta desonesta cuja falta de credibilidade compromete o restante da narrativa, A Última Casa da Rua é o preço que uma jovem excelente atriz acaba tendo que pagar para se manter em evidência (como se precisasse) enquanto espera um roteiro melhor cair no seu colo.

(2/5)
A Última Casa da Rua (House at the End of the Street)
Estados Unidos / Canadá, 2012 – 101 min.
Direção: Mark Tonderai. | Roteiro: David Loucka.
Elenco: Jennifer Lawrence, Max Thieriot, Elisabeth Shue, Gil Bellows, Nolan Gerard Funk.