Crítica: Procura-se um Amigo para Fim do Mundo


Caso Melancolia não houvesse sido dirigido por Lars von Trier, mas de acordo com as regras das produções contemporâneas do circuito independente norte-americano, o resultado estaria bastante próximo deste Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo. Apropriando-se somente do tema principal daquele, ou seja, a reação do homem em face de sua destruição iminente, o filme escrito e dirigido pela estreante Lorene Scafaria não tarda a abusar de reações mais inusitadas do que verossímeis depois da apocalíptica notícia do fim dos tempos. Ela também acrescenta à depressiva atmosfera uma porção de clichês e distrações na forma de personagens esquisitos e descartáveis, no intuito de disfarçar a fragilidade do fiapo de história roteirizado. Além de todos esses defeitos, o filme é muito chato.

Escancarando a sua estrutura capenga a partir do momento em que é revelado no rádio o insucesso da missão Deliverance e o prazo de 21 dias para a colisão do asteroide Matilda na superfície terrestre, a história já apresenta o inerte protagonista Dodge (Steve Carell) perdido em um olhar catatônico enquanto a esposa o abandona. Passivo e resignado desde a profissão de corretor de seguros, Dodge atém-se à sua rotina para não enlouquecer, até que uma série de eventos o leva a conhecer a maluca e irresponsável Penny (Keira Knightley), vizinha com a qual nunca manteve contato e que tem estado de posse de algumas de suas correspondências extraviadas dos últimos anos, inclusive uma enviada por um grande amor do passado do moço. Unidos pelo objetivo comum de reconciliação – Penny deseja rever a sua família na Inglaterra da qual se afastou por causa do namorado e Dodge reencontrar sua antiga paixão -, eles partem em uma peregrinação de carro na qual, inevitavelmente, acabarão apaixonando-se.

Substituindo o pânico da população, visto só em momentos escassos e oportunos, pela meditação existencialista a partir da inércia de Dodge, Scafaria apresenta um contexto pré-apocalíptico em que as pessoas permaneçam indo à academia de ginástica e ainda encontrem ânimo para surfar. A ideia é curiosa e poderia render uma discussão a respeito do temor da humanidade de encarar a sua própria finitude, mas a premissa falha quando tenta soar mais intelectual do que verdadeiramente é. Assim, se já seria difícil aceitar irrestritamente esse universo diegético em condições normais, a cineasta torna a tarefa praticamente impossível com um humor absurdo e inconvencional.

Com uma abordagem arriscada (especialmente para uma cineasta estreante) em que tenta conciliar o tom dramático e depressivo sem abdicar da comédia, a narrativa tem bons momentos graças à exploração inteligente do limiar entre o desespero e a serenidade. E durante a carona com o caminhoneiro interpretado por William Petersen, a diretora acerta na boa construção da sequência que culmina em um suicídio por homicídio (uma boa ideia não tão bem explorada), usando um discreto humor negro para explorar a tragédia da situação. Porém na maioria das vezes, ela não é feliz em equilibrar os temas díspares da dramédia, nem chocando nem provocando sequer sorrisos amarelos. Aliás, a festa niilista em que rolam drogas e sexo e crianças ingerem bebidas alcoólicas estimuladas efusivamente pelo pai interpretado por Rob Corddry (alguma vez ele interpretou alguém que não fosse um babaca?) é de muito mau gosto, além de ser tola e descartável na sua obviedade.

Contando com um Steve Carell triste e contido, bem sucedido em transmitir a amargura de um homem médio vago e desinteressado pela vida, a narrativa beneficia-se (pasmem!) de Keira Knightley, quando não lhe é exigido choros copiosos ou esconder um baseado no cabelo. Dono de um ritmo arrastado, rivalizando só com o sono profundo de Penny e a letargia de Dodge, e apesar de recorrer a encontros telegrafados e reconciliações cafonas, Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo melhora ao abraçar o fim próximo de maneira surpreendentemente esperançosa e otimista. Mas infelizmente, até atingirmos este desfecho honesto, encaramos uma estrada demasiadamente longa, extenuante e simplesmente chata.

(2/5)
Procura-se um Amigo para o Fim do Mundo (Seeking a Friend for the End of the World)
Estados Unidos / Cingapura / Malásia / Indonésia, 2012 – 101 min.
Direção e Roteiro: Lorene Scafaria.
Elenco: Steve Carell, Keira Knightley, Adam Brody, Rod Corddry, William Petersen, Martin Sheen.