Crítica: O Solista


O Solista

O diretor inglês Joe Wright sempre adorou filmes de epoca, vide seus ultimos e premiados trabalhos, “Orgulho e Preconceito” e “Desejo e Reparação”. Seus textos cheios de grandiloquência são sempre centrados nos personagens, mas os cenários, tem sempre muita força e presença. Tendo realizado longas baseados em obras literárias, ele sabe que é impossível transpor toda a informação do livro nos roteiros. O que vai na mente das personagens é ditado pela expressão corporal e complementado pela escolha de planos do cineasta. Nesta sua primeira incursão num ambiente urbano atual, ela volta novamente a explorar como tema a redenção de uma alma perdida através da salvação de outra.

A trama é baseada em fatos reais e conta a história de Steve Lopez (Robert Downey Jr.), um jornalista do Los Angeles Times que escreve sobre pequenas histórias da cidade. Depois de um acidente de bicicleta e estando em crise de ideias (e de existência no geral), descobre por acaso uma jóia rara morando nas ruas: Nathaniel Anthony Ayers (Jamie Foxx), um gênio musical de fina intimidade com o trompete, violoncelo e o piano, mas que por causa da esquizofrenia, se afastou da sociedade.

Acompanhamos em flashbacks o passado do músico, desde seus primeiros dias na escola Julliard até a primeira crise – para mostrar com ciência e em detalhes como sofre uma pessoa com doença mental. Em sua busca desesperada por uma boa reportagem, Lopez acaba desenvolvendo um laço de amizade com o sem-teto e passa a ajudá-lo, na tentativa de salvá-lo – e salvar a si próprio. Para Nathaniel, Steve é o único amigo que alguma vez teve, mas a seu ver não necessita ser salvo.

O Solista é um filme propositadamente feito para tocar os espectadores de coração puro. O tom adocicado do longa soa para estes incautos como “uma história edificante e moderna sobre superação e responsabilidade social”. Mas apure sua visão (e ouvidos) e tente enxergar nas entrelinhas: o verdadeiro solista é o jornalista Steve Lopez. Um sujeito comprometido com sua profissão numa época em que as publicações de papel estão em franca decadência, perdendo cada dia mais leitores para suas versões online.

A obra consegue reunir alguns aspectos interessantes como a força da amizade, o valor da música e até debater questoes sociais, mas, de boas intenções o inferno está cheio. A performance de Mr. Foxx com Nathaniel é exagerada, e nos deixa com uma pulga atrás da orelha: Será que o ator estava de olho numa premiação acadêmica?

Dito isto, lembrei da série britânica “Extras” criada por Ricky Gervais. Num dos episódios com participação da atriz Kate Winslet, sua personagem, uma atriz oportunista, dispara: “É verdade! Se interpretar um retardado, você tem um Oscar garantido!”. Jamie Foxx vai levar para casa o carecão dourado? Negativo! Não bastasse O Solista ter sido lançado nos EUA no inicio deste ano (os velhinhos da Academia tem memória curta), ele já recebeu sua estatueta dourada por fazer um deficiente (visual), num filme bem melhor que este: “Ray”.

(3/5)
O Solista (The Soloist)
Estados Unidos, 2009 – 117 min.
Direção: Joe Wright.
Elenco: Robert Downey Jr., Jamie Foxx, Catherine Keener, Tom Hollander, Nelsan Elis.