Crítica: Rogue One – Uma História Star Wars

O título nacional desse novo filme do universo criado por George Lucas parece ser bastante propício. Ao contrário dos lançamentos anteriores, que traziam os dizeres Episódio VI, Episódio VII, etc; este aponta apenas para uma história passada há muito tempo atrás, em uma galáxia muito distante. E é exatamente isso. Apesar de trazer uma relação direta com a saga “original” (este seria uma espécie de Episódio 3,5 na cronologia correta), Rogue One: Uma História Star Wars tenta se sustentar como uma trama à parte. E o melhor de tudo é que consegue.

Escrito por Chris Weitz (A Bússola de Ouro) e Tony Gilroy (O Legado Bourne), o roteiro acompanha Jyn Erso (Felicity Jones, de A Teoria de Tudo), filha do cientista Galen Erso (Mads Mikkelsen, de Dr. Estranho) responsável pela construção – a contragosto – da Estrela da Morte. Jyn está em fuga desde a sua infância, quando conseguiu escapar das garras de Orson Krennic (Ben Mendelsohn, de Êxodo: Deuses e Reis), oficial do império responsável pela morte da sua mãe e aprisionamento do seu pai. Durante sua fuga, ela passou um tempo com o rebelde Saw Gerrera (Forest Whitaker, de A Chegada), mas agora está por conta própria. Isso acaba chamando a atenção de um grupo da Aliança Rebelde, liderado por Cassian Andor (Diego Luna, de Elysium), que precisa dela para chegar até Galen e impedir a finalização da Estrela da Morte, visto que uma arma dessa magnitude colocaria toda a galáxia aos pés do império.

Quem conhece o universo de Star Wars sabe que essa trama é a mesma apresentada nos letreiros iniciais do Episódio IV: Uma Nova Esperança, quando aparece os dizeres de que um grupo de rebeldes roubou os planos da Estrela da Morte. E por se tratar de uma história mais ou menos conhecida, a base da narrativa não é mostrar o que aconteceu, mas sim como isso aconteceu. Quem eram os envolvidos. Que sacrifícios eles fizeram. Assim, todos os personagens têm um arco dramático muito bem definido, com personalidades conflitantes e visões políticas distintas – algo explicitado na discussão entre Jyn e Cassian a respeito da obediência cega. E mais, esse sim é um filme que faz jus a ideia de Guerra presente no título da saga. Não apenas pela batalha final (que é muito boa), mas por toda uma trama intrincada envolvendo conspirações, segredos, mentiras, extremismo e mortes… muitas mortes.

Assim, é no mínimo decepcionante perceber que após uma construção tão segura, os roteiristas apelem para clichês batido no seus terceiro ato, colocando os personagens correndo até uma zona de perigo para puxar uma alavanca (recurso este usado em dois momentos diferentes) ou apostando em coincidências muitos grandes, como ao concentrar heróis e vilões no mesmo local, ao mesmo tempo. E sim, há uma participação de Darth Vader. Mas fiquei me perguntando qual a sua real contribuição para aquela história, já que ele parece servir mais como elemento de ligação entre os episódios, trazendo uma visualidade a mais para este spin-off, do que de fato tendo alguma importância.

Digo “uma visualidade a mais” porque Rogue One é cheio de referências ao universo concebido por George Lucas. E o ícone representado por Vader acaba importando mais do que sua influência na condução da narrativa. Isso porque outros personagens de filmes anteriores e posteriores (cronologicamente falando) também aparecem aqui e com muito mais importância para essa trama. É o caso, por exemplo, de Wilhuff Tarkin, que foi recriado em computação gráfica visto que seu intérprete, o ator Peter Cushing, morreu há mais de 20 anos. Aliás, no quesito técnico, o longa é impecável. Desde a fotografia, que explora bem as diferenças entre os planetas – uns coloridos, outros quase monocromáticos – até a direção de arte, que apesar de ter uma influência muito forte do restante da franquia, também retira conceitos visuais de filmes como Blade Runner, O Caçador de Androides.

O diretor Gareth Edwards (Godzilla) demonstra competência ao se equilibrar entre possibilidade de apresentar algo novo e a necessidade de ser referente à franquia. Deixando um pouco o lado fantasioso de fora – a Força tem uma participação simbólica e quase não se tem menção de sabres de luz ou jedis –, este novo longa tem uma urgência que outros não tinham. Além disso, o cineasta é criativo na forma como comanda as cenas de ação, criando momentos grandiosos e icônicos. Gosto particularmente de duas sequências: a primeira quando os personagens estão em Jedha e o ataque dos rebeldes é filmado como se fosse um ataque terrorista; e a outra durante a grande batalha no clímax, quando a câmera mostra primeiro o que está acontecendo no ar para, sem cortes, se dirigir até a praia, e revelar a destruição que está acontecendo por lá. Momentos como esses que contribuem para fazer de Rogue One uma bela história, digna dos melhores filmes de Star Wars.

Rogue One: Uma História Star Wars (Rogue One: A Star Wars Story)
Estados Unidos, 2016 – 133 min.
Direção: Gareth Edwards.
Roteiro: Chris Weitz e Tony Gilroy.
Elenco: Felicity Jones, Diego Luna, Donnie Yen, Ben Mendelsohn, Mads Mikkelsen.