Crítica: A Chegada


A cada novo projeto, o cineasta canadense Denis Villeneuve (Os Suspeitos) demonstra talento e versatilidade ao trabalhar com gêneros distintos, sempre obtendo resultados excepcionais. Depois de passar por gêneros como drama, thriller e suspense, seu mais recente trabalho, A Chegada, é a sua primeira incursão no gênero de ficção científica e, mantendo a linha da sua produção, o resultado é novamente espetacular.

Escrito por Eric Heisserer (Quando as Luzes se Apagam) com base num conto de Ted Chiang, o roteiro acompanha a Dr. Louise Banks (Amy Adams), uma linguista escalada pelo exército americano para tentar estabelecer comunicação com os alienígenas tripulantes de uma das diversas naves que pousaram ao redor do mundo. Banks trabalha ao lado do físico Ian Donnelly (Jeremy Renner) para decifrar o vocabulário das criaturas e tentar entender, de fato, o real motivo de eles estarem ali.

Desde a sequência inicial é estabelecido um clima melancólico para o filme, que tem início com uma história emocionante e trágica que mostra a perda da filha da protagonista. A narrativa é construída de maneira lenta, nas quais pequenos passos são dados a cada nova visita à nave alienígena e a cada tentativa de se estabelecer algum tipo de comunicação. O ritmo do filme ilustra o ritmo do aprendizado da nova língua. Ou seja, no começo é devagar, mas uma vez que se conhece melhor o idioma, o longa se torna mais acelerado, dinâmico e urgente. E a ideia de um tempo que corre em paralelo – com diferentes formas de percebê-lo e com “dias que definem a sua história para além da vida” –, explorada desde o começo, fica ainda mais forte, quando detalhes aparentemente sem importância ganham um novo significado.

O apuro visual de Villeneuve é impressionante e suas escolhas estéticas condizem perfeitamente com a abordagem aqui apresentada. É o caso das naves, por exemplo, que apesar do seu imenso tamanho, são “escondidas” no início da projeção. Ele prefere focar nos rostos assustados das pessoas assistindo às notícias na TV do que explicitar o conteúdo do que está sendo transmitido. A revelação só acontece quando a protagonista vê as naves pela primeira vez “ao vivo”. E nesse momento o cineasta faz questão de nos presentear com um plano belíssimo no qual sobrevoa todo campo militar que cerca a nave, mostrando-a na sua totalidade em meio a um cenário banhado por nuvens e névoa.

Mais do que isso, porém, talvez a decisão mais louvável do diretor tenha sido a de não apelar para cenas de ação gratuitas como forma de manter a atenção do espectador. Ele confia de que a história ali contada é suficiente para segurar o seu público – e é mesmo! Claro que, aqui e ali existem algumas sequências de tensão – como o atentado à nave ou a crise política causada pela presença dos alienígenas –, mas esse não é o cerne da narrativa. No fim, a mensagem principal é uma mensagem de paz e não de conflito. Trata-se de uma visão muito mais utópica do que distópica em relação a como seria o primeiro contato da raça humana com alienígenas.

Quem acompanhou o cinema de ficção científica recente vai notar uma semelhança muito grande entre A Chegada e Interestelar. Porém, a grande diferença entre esses dois longas está na visão dos seus respetivos realizadores. Christopher Nolan é muito mais “comercial”, e por conta disso a sua abordagem é mais “simples” e detalhada. Villeneuve, por sua vez, não costuma dar respostas simples para questões complexas. São filmes similares em suas temáticas, mas distintos em suas execuções. Ambos de cineastas extremamente talentosos; ambos tendo defensores e detratores; e ambos excepcionais, cada um à sua maneira.

A Chegada (The Arrival)
Estados Unidos, 2016 – 116 min.
Direção: Denis Villeneuve.
Roteiro: Eric Heisserer, com base no conto de Ted Chiang.
Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg.