Crítica: A Morte do Demônio


No início da década de 1980, o hoje cultuado diretor Sam Raimi (Trilogia Homem-Aranha, Oz – Mágico e Poderoso) era apenas um moleque recém-saído da escola de cinema quando reuniu um grupo de amigos para realizar o horror Evil Dead – traduzido equivocadamente no Brasil como “A Morte do Demônio”; o correto seria Morte Demoníaca. A produção paupérrima, realizada com a merreca de 375 mil dólares, acabou revolucionando o gênero com sua estética criativa, humor negro e maquiagem assustadora, revirando de cabeça para baixo uma geração inteira de aficionados do gênero.

Trinta e dois anos depois, chega aos cinemas de todo país a nova versão de A Morte do Demônio – a distribuidora nacional decidiu manter a tradução errônea como estratégia de marketing -, remake produzido pelo próprio Raimi com o objetivo de não só atualizar sua obra mais antológica, mas também aplacar a cobrança (leia-se sede de sangue) dos seus fãs mais antigos, que há muito esperavam por um novo capítulo da franquia – o longa original teve duas continuações, em 1983 e 1992.

Dirigido pelo uruguaio descoberto no Youtube, Fede Alvarez, a nova versão traz basicamente a mesma história: cinco amigos se reúnem numa casa isolada na floresta e, um a um, são possuídos por espíritos demoníacos após lerem um trecho de um livro de magia negra feito com pele e sangue humanos que eles encontram no porão do lugar. O isolamento da garotada é justificado com um motivo plausível: uma intervenção entre amigos para ajudar a jovem viciada Mia (Jane Levy) a desintoxicar. Não por acaso, a jovem – que lembra um pouco Kristen Stewart – é a primeira escolhida pela entidade do mal (que aqui aparece de corpo presente), com seus ataques sendo inicialmente confundidos com crises de abstinência pelos colegas.

Por mais que as duas versões apresentem diferenças — afinal, mais de trinta anos separam os dois filmes – e o gênero “torture porn” consolidado por produções como O Albergue e Jogos Mortais já tenha presenteado os fãs com cenas brutais de violência gráfica, Evil Dead faz estes longas citados parecer um passeio no parque. Litros de sangue jorram à vontade quando o corpo humano transforma-se em alvo para as mais cruéis experiências envolvendo estiletes, pregos, vidros, serras ou qualquer outro objeto perfurocortante que ajude na extirpação de membros.

Infelizmente, o humor (involuntário) do “clássico” não existe na refilmagem. Com anuência do próprio Raimi, o roteiro escrito por Alvarez (com contribuições de Diablo Cody, Garota Infernal) deixa de lado as gags visuais para apostar num horror “sério”. Até porque não existe no remake nenhum personagem emblemático como Ash, interpretado por Bruce Campbell no original. A “graça” do filme está mesmo no festival de sanguinolência que a produção promove. Referências nostálgicas a obra oitentista é claro que existem, mas dentro de um contexto que não permite a anarquia. A Morte do Demônio não vai revolucionar o gênero como seu antecessor, mas cumpre o que promete, funcionando como um eficiente filme de horror.

(3.5/5)
A Morte do Demônio (Evil Dead)
Estados Unidos, 2013 – 91 min.
Direção: Fede Alvarey. Roteiro: Rodo Sayagues e Fede Alvarez.
Elenco: Shiloh Fernandez, Jane Levy, Jessica Lucas, Lou Taylor Picci, Elisabeth Blackmore.