Crítica: Meu Namorado é Um Zumbi


Desde A Noite dos Mortos-Vivos (1968), em que George Romero transformou criaturas exumadas da terra em ícones do cinema, os zumbis e as evoluções posteriores têm sido melhor usados como metáfora da sociedade atual do que somente instrumentos para assustar. Meu Namorado é um Zumbi em nada diverge disso partindo do conflituoso R para discutir a urgência do ser humano (ou zumbis, se preferirem) de se conectar com alguém, uma mensagem estampada já na primeira cena e que, por mais óbvia que seja, não perde a sua relevância ao discutir o ápice do isolamento provocado por smartphones e a irônica sensação de conectividade que eles produzem.

Escrito pelo diretor Jonathan Levine, que também dirige, o longa estabelece as regras de comportamento dos Cadáveres cedo na narrativa in off de R (Nicholas Hoult), um morto-vivo reflexivo e repleto de dilemas existenciais com um quê neurótico, e de quebra responde algumas perguntas deixadas em aberto por George Romero, como o porquê dos zumbis andarem em bandos e a predileção por cérebros humanos como maneira de consumir as memórias dos outros, uma ideia original que junto à reflexão proposta no parágrafo anterior, é a chave que rege as redes sociais. No entanto, a vida moribunda de R sofre uma mudança radical quando, durante um ataque a uma equipe humana que estava buscando mantimentos, ele se apaixona por Julie (Teresa Palmer, aluna da “escola Kristen Stewart”, com uma pitada de Naomi Watts), mas não antes de devorar o seu namorado Perry (Dave Franco, a cara xerocopiada do irmão James). Dedicado a mantê-la segura, R ainda tenta conquistá-la apesar das adversidades, já que além do fato dele ser um cadáver, Julie ainda é filha do líder da resistência Grigio (John Malkovich), cuja rixa com os Cadáveres é bem mais pessoal.

A princípio uma esquisita combinação de gêneros bem díspares, o pós-apocalíptico com zumbis e a comédia romântica, a narrativa demora um bocadinho para encontrar o equilíbrio satisfatório, mas quando o faz também ultrapassa as barreiras impostas pelos rígidos clichês dos gêneros originais e parte disso vem da figura do contraditório protagonista. Com cicatrizes no rosto iguais às de Edward Mãos de Tesoura, R compreende a natureza animalesca dos Cadáveres, a fome que sentem e a ameça que representam, e até parece apreciar devorar Perry, embora esforce-se para convencer o espectador que não. Porém, a caracterização cuidadosa que parte da ótima maquiagem e do figurino – um moletom vermelho que o diferencia de todos os demais zumbis e lhe dá vida através da cor -, à narração essencial para que uma criatura monossilábica com dificuldade de encadear uma frase expresse-se e à boa atuação de Nicholas Hoult, ajudam a aceitar a ingenuidade e boa-vontade de R em ser uma “pessoa” melhor e, consequentemente, o relacionamento impossível com Julie.

Também ajuda a insegurança do rapaz diante de Julie, agindo como uma criança enquanto revela a sua coleção de vinis e durante um passeio de carro, sendo capaz ainda de roer-se por dentro até soltar uma pérola como “Este encontro não está indo bem. Quero morrer de novo”. Uma pena então que depois de estabelecer corretamente o universo pós-apocalíptico destruído em cores azuis frias iguais aos pálidos Cadáveres e fugir de meia-dúzia de conflitos e resoluções artificiais, sendo honesto com a história que pretende contar, o diretor Jonathan Levine acaba abraçando clichês bobos e descartáveis, como o que coloca os Cadáveres caminhando em câmera lenta em direção à tela, e momentos particularmente constrangedores nos inserts de um coração batendo e ganhando vida.

Mas o pior é o surgimento da amiga de Julie, Nora (Analeigh Tipton), cujos gritinhos, suspiros e ações destoam totalmente do filme que se estava contando até então. A título de comparação, até o melhor amigo de R, interpretado pelo normalmente inconveniente Rob Corddry, consegue ser doce e prestativo sem sacrificar a verossimilhança do personagem, exceto o palavrão perdoável gritado em momento de empolgação. Já os Esqueléticos funcionam bem porque representam tanto a ameaça implacável que justifica erigir um muro (outro símbolo óbvio e eficiente da mensagem da narrativa) quanto o destino inevitável dos Cadáveres após determinado tempo de putrefação. Com sua vibrante trilha sonora, que passa de Guns ‘N Roses a Bob Dylan, Bruce Springsteen a Scorpions, Meu Namorado é um Zumbi é uma versão inusitada de Romeu e Julieta em um mundo despedaçado, mas ultimamente capaz de ser curado pelo amor.

(4/5)
Meu Namorado é Um Zumbi (Warm Bodies)
Estados Unidos, 2013 – 97 min.
Direção e Roteiro: Jonathan Levine.
Elenco: Nicholas Hoult, Teresa Palmer, Analeigh Tipton, Rob Corddry, John Malkovich.

  • Milla

    Nem uma crítica 4 estrelas no getro me dá "coragem" para ver este filme. Minha única motivação é ter embasamento para voltar aqui e xingar estas 4 estrelas :) e voltarei!

  • Thiago

    Filme legal, gostoso de assitis com os amigos, dei muitas risadas!, nada que marcasse, mas valeu a pensa.

  • Otimo filme, realmente muito bem estruturado e com fundo emocionante, ja vi muitos filmes bobos e ridículos e este concerteza não é um deles, enfim, adoreei!

  • Ricardo

    Gostei bastante do filme, estava esperando algo como crepusculo ou malhação, mas é realmente legal o filme. Tem as sacadas básicas de zumbi, ótimos momentos de comédia e ação. Vale a pena.

  • Thalita

    Trilha sonora impecável. É meio bobo, mas para os fãs de Nicholas Hoult vale apena conferir.

  • Fiquei com o pé atrás pra assistir esse filme. Pelo trailer nota-se a quantidade de clichês, que propositalmente, criam aquele ar de comédia romântica. E a trilha sonora é no mínimo ótima. Acho que da pra dar uma conferida.

  • Milla

    Tem certeza que não clicou errado na hora de dar as estrelas? Não posso dizer que estou frustrada, porque eu já esperava. Filme péssimo, estória fraca, nem um pouco convincente, atuação fajuta do protagonista, que, aliás, recebeu uma missão impossível: convencer não como um zumbi, mas como um morto que volta a vida pelo poder do amor a primeira vista entre um jovem adolescente e uma garotinha….acredite se quiser… bonita. O clichê dos clichês só não foi mais enfadonho pela tentativa do protagonista em encenar o impossível, o que deu ao filme uma linguagem no mínimo pastelona, para paródia do YT só faltou me fazer rir! De todas as avaliações do site, entre as que concordo e discordo, esta fez perder credibilidade.

  • Lucas

    Filme ridículo ! Eu fui ver esse filme e eu saí logos nos primeiros 30 minutos, era muito idiota em sem noção