Crítica: O Guarda


O Guarda

Nenhum subgênero policial faz tanto sucesso no cinema quanto os chamados Buddy Cop Movies, aqueles filmes com a presença de dois protagonistas antagônicos obrigados a trabalhar juntos que inicialmente não se bicam para em seguida se transformarem em melhores amigos – vide Máquina Mortífera, 48 horas, Duro de Matar 3. O Guarda, apesar de se enquadrar neste estilo, subverte os padrões, estereótipos e não tem dó na hora de esculhambar os clichês que tanto caracterizam o gênero.

Brendan Gleeson (Na Mira do Chefe) faz o personagem título Gerry Boyle, um sargento da policia descompromissado com sua função, que vive numa cidadezinha costeira da Irlanda. Beberrão e mal-educado, o sujeito passa o tempo entre orgias com prostitutas e casos corriqueiros que resolve com seu jeito nada convencional. A situação muda quando entra em cena seu contraponto, um agente do FBI (Don Cheadle de Homem-de-Ferro 2) que chega ao local para investigar uma quadrilha internacional envolvida com tráfico de drogas.

Uma vez que o personagem de Gleeson possui um humor sarcástico e grosseiro, esta premissa pouco original é apenas desculpa para ele disparar sua metralhadora de insultos em todas as direções. Sobram comentários ultra-ácidos sobre racismo, polícia, corrupção política, sexo, cultura britânica x american-way-of-life, referências cinematográficas.

O inteligente roteiro (escrito pelo diretor John Michael McDonagh estreando no comando de um longa) ridiculariza absolutamente todos os personagens em cena, arrancando risos nas situações mais absurdas – há piadas sobre clarividência tocando partes íntimas de defuntos e zoofilia. Enquanto o anti-herói é amoral e desprezível, os vilões (Liam Cunningham e Mark Strong), que chegam ao cúmula de citar Nietzsche, são caricatos e zombeteiros ao extremo.

A fotografia de cores fortes levemente saturadas e a trilha sonora divertida e envolvente também merecem menção. Apesar de tanto apuro técnico, o grande chamariz de O Guarda é mesmo Brendan Gleeson. O veterano ator irlandês entrega, com o perdão da palavra na falta de adjetivo melhor, uma das performances mais “filhas-da-puta” da história do cinema, prato cheio para quem curte humor politicamente incorreto. Rafinha Bastos perde.

(4/5)
O Guarda (The Guard)
Irlanda / Inglaterra / Argentina, 2011 – 96 min.
Direção e Roteiro: John Michael McDonagh.
Elenco: Brendan Gleeson, Don Cheadle, David Wilmot, Mark Strong, Liam Cunningham.