Crítica: The Runaways – Garotas do Rock

Garotas do Rock

Em 1975, quando o cenário musical era formado apenas por homens, quatro garotas californianas se uniram num trailer sujo sob o olhar de um surtado produtor musical para formar a primeira banda de rock só de garotas. The Runaways conta a história dessas jovens que, com uma carreira meteórica, pavimentaram o caminho de importantes grupos liderados por mulheres na mesma década, como Blondie e The Pretenders.

Dirigido pela italiana Floria Sigismondi, consagrada diretora de videoclips do White Stripes e Marilyn Manson, e tendo como protagonistas as twilighters Kristen Stewart e Dakota Fanning a cinebiografia peca pelo excesso de romantização ao retratar tanto o sucesso quanto o fracasso com cenas de recorte publicitário (câmera lenta e fotografia embaçada; manchetes da jornais voando pela tela) e atuações caricaturais.

O título do filme remete à banda, mas a trama concentra-se apenas em duas figuras do grupo: a guitarrista Joan Jett (Stewart), rebelde por natureza e a vocalista Cherie Currie (Fanning), uma jovem que vê na música a oportunidade de escapar dos seus problemas familiares. The Runaways se forma efetivamente quando entra em cena o insandecido produtor Kim Fowley (Michael Shannon) que prepara as adolescentes numa espécie de “treinamento militar do rock”.

Pouco mais de um ano separaram os ensaios no trailer do primeiro disco e a primeira turnê internacional do grupo no Japão. E menos tempo ainda, o uso desenfreado de barbitúricos e cocaína, as disputas de ego dentro da banda ou os conflitos envolvendo Fowley, um sanguesuga de marca maior – que anos depois dirigiu trabalhos do Kiss e Slade. Jovens demais, com pouca estrutura familiar, expostas ao sucesso imediato e às cobranças de gravadoras e fãs, as Runaways sucumbiram em 1979.

Produzido pela própria Joan Jett e baseado na biografia Neon Angel: The Cherie Currie Story, o roteiro superficial deixa de fora alguns fatos importantes sobre o grupo, como os primeiros shows, a constante troca de integrantes e a contribuição musical da guitarrista-solo Lita Ford, que no filme é retratada com descaso – uma vez que a produção ofereceu apenas mil dólares pelos direitos de sua história e Lita, obviamente, não cedeu.

Se o enredo deixa a desejar, a ambientação do longa tem seus méritos, desde a cenografia e figurino, até a trilha sonora potente ancorada em músicas de David Bowie, The Stooges, Sex Pistols e, claro, The Runaways com versões originais e algumas canções interpretadas por Kirsten e Dakota, que surpreende em suas performances de palco.

Num determinado trecho do longa, Michael Shannon na pele do excêntrico Fowley dispara “o rock’n’roll é um esporte sangrento”. Sendo assim, aqui em Garotas do Rock, o sangue foi trocado por uma mistura de groselha com chocolate, mais palatável ao público que acompanha a carreira das duas atrizes na pele de insossas vampirinhas da adocicada saga Crepúsculo.

(3/5)
The Runaways – Garotas do Rock (The Runaways)
Estados Unidos, 2010 – 106 min.
Direção e Roteiro: Floria Sigismondi.
Elenco: Kristen Stewart, Dakota Fanning, Michael Shannon, Stella Maeve, Stella Maeve.