Crítica: O Acampamento

A Austrália costuma ser lembrada por seus animais gigantes e paisagens paradisíacas e, na última década, também despontou como um dos países que mais produz filmes de terror. O ponto de virada foi em 2005, com o sucesso de bilheteria Wolf Creek: Viagem ao Inferno. A fita abriu caminho para que o público se familiarizasse com a essência australiana de contar histórias obscuras, sem receio de usar violência extrema e de explorar elementos psicológicos, fatores conferidos em filmes como Os Crimes de Snowtown (2011) e o recente Predadores do Amor (2016).

Há todo tipo de ingrediente em seu vasto catálogo, mas existe um ambiente exclusivamente australiano capaz de amplificar sua brutalidade característica: o Outback, imensa região desértica localizada no interior do país. É este cenário angustiante que o jovem diretor Damien Power escolheu para ambientar seu longa-metragem, O Acampamento. Utilizando cenas realistas e estrutura não convencional, o longa acompanha o o casal Sam (Harriet Dyer) e Ian (Ian Meadows), que partem para acampar no interior. Em busca de um local tranquilo para passar o fim de semana, eles montam sua tenda à vista de outro acampamento, cujos moradores não parecem estar presentes. No entanto, não demora muito para descobrirem que o território abriga psicopatas, à espreita pela próxima vítima.

Quem é assíduo do gênero, certamente reconhecerá essa premissa. O Acampamento vai onde tantos outros thrillers já passaram, mostrando lunáticos atacando pessoas em um ambiente isolado. O que o distingue dos demais é sua construção alternada, com uma linha de tempo fatiada em três diferentes narrativas sobrepostas. Além do casal, também acompanhamos a trajetória da dupla de caçadores German (Aaron Pedersen) e Chook (Aaron Glenane), e dos pais Margaret (Maya Stange) e Rob (Julian Garner) e seus dois filhos.

Enquanto a primeira parte é focada no desenvolvimento dos personagens, o segundo ato é reservado para ostentar o mais puro horror gráfico. Logo, torna-se claro, graças às pistas devidamente encaixadas na trama, quem irá lutar por sobrevivência. Dando sequência a tradição de Wolf Creek, o filme enerva o público com sua violência realista e extrema – e, quando a carnificina começa, não pára mais. O fator perturbador, além da repulsa retratada em cenas sádicas e chocantes, é a ideia de que isso realmente poderia acontecer com qualquer um.

Ao contrário de filmes que apresentam monstros ou forças sobrenaturais, os vilões de O Acampamento – assim como suas vítimas – são demasiadamente humanos. A naturalidade das ações de cada personagem estabelece uma atmosfera assustadoramente real, que transmite pânico e angústia. Apesar de estreante, não há nenhuma evidência de inexperiência na produção de Power. Seu roteiro é mais ambicioso do que a maioria dos filmes do gênero e a montagem, feita para entrelaçar as histórias paralelas, ajuda a disseminar a tensão durante todo o processo.

Sob a cinematografia claustrofóbica de Simon Chapman, também responsável pela fotografia do icônico Entes Queridos (2009), o longa instiga mas não sustenta a proposta por completo. Além da narrativa, o único truque escondido na manga é o mistério acerca do tempo em que se passam as três tramas, algo que os espectadores irão descobrir muito rapidamente. O gancho estrutural, apesar de envolvente, não é forte o suficiente para fazer O Acampamento inesquecível. A ausência de um desfecho substancial também deixa a desejar. Mesmo com falhas, a direção e escrita do estreante Power aponta para mais um talento do horror no isolado continente oceânico. Mais do que o pavor típico causado pelo interior australiano, a fita têm êxito ao nos lembrar o quão aterrorizante o impulso humano pode se revelar.

O Acampamento (Killing Ground)
Australia, 2016 – 88 min.
Direção e Roteiro: Damien Power.
Elenco: Harriet Dyer, Tiarnie Coupland, Mitzi Ruhlmann, Aaron Pedersen, Maya Stange.