Crítica: Esta é a Sua Morte – O Show

Esta É a Sua Morte – O Show começa com uma cena de casamento. Era para ser um momento feliz, mas a música melancólica conota outro sentimento. Logo descobrimos o motivo para tamanha tristeza. O casamento em questão é a final de um reality show para escolher a noiva para um milionário. E quando este faz a sua escolha, a mulher rejeitada mata-o e em seguida tira a sua própria vida. Durante o tiroteio, o apresentador Adam Rogers (Josh Duhamel) salvou a vida da outra mulher – a que tinha sido escolhida pelo milionário – e isso lhe dá o status de herói nacional. A mesma música que ouvíamos antes torna-se mais acelerada, mais ritmada, dando significado a epifania que Rogers tem no ar, durante um programa de entrevistas, quando fala sobre o consumo excessivo de imagens como aquela que vimos antes. Ele critica a TV, critica o público, critica os programas e os seus respectivos apresentadores. A música pára quando ele chega em casa. Mas em vez de significar um novo começo para ele, tal silêncio momentâneo aponta que naquele universo, até mesmo as supostas boas vontades são passageiras, e que, na verdade, nada vai mudar.

Escrito por Noah Pink (série Genius) e Kenny Yakkel (Dead Man Rising), e claramente baseado no clássico Rede de Intrigas, o roteiro tenta reforçar essa crítica à TV e à espetacularização da violência ao colocar Adam sendo chamado pela emissora para apresentar um novo programa, um reality show no qual ocorreriam suicídios de verdade. A princípio ele é contrário, mas logo muda de ideia, com a condição de não fazer uma atração que celebre a morte, mas sim a vida. “As pessoas querem algo real”, ele diz. “Não vai ser um circo. Vai ser chocante e real”. E é aí que reside um dos principais problemas do filme: essa proposta do apresentador simplesmente não faz sentido. Porque, como a própria executiva do canal diz em seguida, os participantes ainda iriam se matar no ar. Sim, seria possível afirmar que essa é uma característica da sua persona, que ele se isola em sua própria bolha e parece não perceber algo tão óbvio como o fato de que, ao oferecer recompensas financeiras aos participantes, seu programa estará incentivando o suicídio. Mas isso é tão básico e tão claro que toda a polêmica prometida pelo roteiro se esvai em meio a obviedade.

No entanto, o protagonista não parece perceber isso. Logo após o primeiro programa, ele já aparece dando entrevista – com um topete exagerado que só amplifica a sua canastrice –, defendendo essa sua proposta inovadora, fechando acordos de publicidade e fazendo com que o dinheiro passe a comandar as suas decisões criativas – e morais. E não demora para que ele comece a manipular o programa e sacrificar a transparência que ele prometeu inicialmente, tudo em nome da audiência. Porém, essa sua “trajetória” que vai das boas intenções até as decisões equivocadas é mostrada de maneira acelerada. A passagem de tempo é confusa e muito do desenvolvimento dos personagens fica perdido em meio ao que não é visto. É o caso, por exemplo, da relação de amizade entre a produtora do programa e a irmã do apresentador. Por mais que as duas tenham se encontrado apenas uma vez, e trocado duas palavras, uma passa a demonstrar uma preocupação enorme com a outra, como se existisse ali um laço de amizade que nós, como espectadores, desconhecíamos.

Dirigido pelo ator Giancarlo Esposito (que também desempenha um papel no longa como um sujeito cuja trajetória fica óbvia desde o início), Esta É a Sua Morte – O Show ainda tenta ratificar a sua posição contrária ao tema aqui abordado, destacando a violência daquelas mortes e a maneira como tal programa reflete uma organização da sociedade na qual pessoas ricas e poderosas se aproveitam dos mais pobres, usando-os como instrumento para seu próprio entretenimento. Isso fica exemplificado nos momentos em que a equipe de limpeza entra em cena logo após a morte, antes mesmo dos comerciais. É preciso liberar o espaço para a próxima vítima. Porém, o diretor não consegue tornar essa crítica social interessante para o público, em parte por conta das atuações canhestras de todo o elenco principal (mas em especial de Josh Duhamel) e em parte por causa da sua direção inexpressiva, que dá à obra uma cara de “filme-feito-para-a-TV” – o que, nesse caso, é uma grande ofensa.

Esta é a Sua Morte – O Show (This is Your Death)
EUA, 2017 – 104 min.
Direção: Giancarlo Esposito. | Roteiro: Noah Pink e Kenny Yakkel.
Elenco: Josh Duhamel, Famke Janssen, Sarah Wayne Callies, Giancarlo Esposito, James Franco.