Crítica: Capture Kill Release


Foi-se o tempo em que os cinemas de shoppings eram inundados por produções comerciais no estilo found footage. Atividade Paranormal teve seu espaço garantido em salas mais comerciais, mas o que veio depois? É possível que logo surja uma nova franquia para reivindicar o seu espaço além do circuito alternativo, mas até o momento não há nenhum grande representante do subgênero (Bruxa de Blair, A Forca e A Visita são títulos isolados). Mas ainda que esses filmes não tenham tanto espaço no mainstream, o cinema independente continua explorando bem as potencialidades do subgênero. E o recente Capture Kill Release, dirigido por Nick McAnulty e Brian Allan Stewart, é um exemplo disso.

Escrito por McAnulty, o longa tem início da mesma maneira que muitos found footages: com a protagonista ligando a sua câmera nova pela primeira vez. Jennifer (Jennifer Fraser) aparece mexendo no aparelho e esperando o namorado Farhang (Farhang Ghajar) chegar em casa para mostrar-lhe a nova aquisição. A princípio não há nada de estranho na rotina daquele casal. A câmera operada por eles apresenta situações cotidianas, como uma tentativa frustrada de filmar uma sex tape. Porém, enquanto andam pelos corredores de uma loja de ferragens, percebemos que eles escolhem ferramentas com base na sua capacidade de cortar um corpo humano. A naturalidade com que esse elemento estranho é inserido encontra um reflexo perfeito no formato adotado pelos cineastas, caracterizado por filmar o banal. Aqui eles discutem tranquilamente sobre a drenagem do corpo, os diferentes cortes e a escolha da vítima como se tais atos fizessem parte do se cotidiano (e não fazem). O ordinário, nesse caso, transforma-se na fonte do terror.

Mesmo trabalhando em cima de um subgênero bastante limitador, os diretores conseguem extrair um certo grau de complexidade daqueles personagens e dedicam boa parte da narrativa para demonstrar como a preparação para o assassinato afeta aquelas pessoas, tanto de maneira positiva quanto negativa. Entendemos como a antecipação pela morte tem um efeito afrodisíaco no casal, e descobrimos que essa “curiosidade” pela morte acompanha Jennifer desde a juventude. Farhang, por sua vez, foi convencido pela namorada a colocar a sua obsessão em prática, mas não está tão envolvido no plano quanto ela. Essas visões distintas sobre o assassinato causa atritos na união dos dois. E esses atritos crescem exponencialmente, até se tornarem um problema grande demais para ser ignorado.

Além de filmar os atos do casal, a câmera diegética (inserida dentro do universo narrativo do filme) também serve como um registro da degradação daquele relacionamento. Discussão semelhante acontece com o primeiro Atividade Paranormal (para saber mais, sugiro o livro de Alexandra Heller-Nicholas sobre o assunto), e assim como naquele caso, a relação com equipamento tem um papel primordial. Jennifer é obcecada pelo aparelho. Ela não quer apenas cometer um assassinato; ela quer filmar a si mesma enquanto comete o crime. A câmera desempenha um papel ativo, quase como se os “forçasse” a cometer as atrocidades. Dentro da lógica estabelecida, se não houvesse uma câmera, não haveria assassinato. E se a câmera é cúmplice do crime, o que dizer então daqueles que estão assistindo? Vemos o filme pela ótica do assassino, partilhamos do mesmo olhar e nos tornamos cúmplices também. É a lógica voyeurística exponenciada pelo found footage.

Em entrevista na época do lançamento de Bruxa de Blair, o diretor Adam Wingard falou que esse cinema em primeira pessoa é o futuro do terror. Isso porque ele permite uma proximidade assustadora seja com a vítima ou com o perpetuador. Essa é a ideia principal do filme. Uma proposta que só não funciona perfeitamente por conta da sua protagonista. Inexperiente e um pouco inexpressiva, Jennifer Fraser não consegue explorar tudo que essa proximidade permite. Em muitos momentos ela soa exagerada, em outros, irritante. É, sem dúvidas, o elo mais fraco da corrente, que só não estraga o resultado porque a lógica ali proposta e a execução eficaz dos realizadores sobrepõem esse problema. Exemplos como esse de Capture Kill Release fazem com que eu mude meu argumento inicial. O found footage não está desgastado. Ele está escondido no cinema independente.

Capture Kill Release
Canada, 2016 – 96 min.
Direção: Nick McAnulty e Brian Allan Stewart. | Roteiro: Nick McAnulty.
Elenco: Jennifer Fraser, Farhang Ghajar, Jon Gates, Rich Piatkowski, Christina Schimmel.