Crítica: Logan

Existe um motivo muito claro para que essa nova aventura do personagem interpretado por Hugh Jackman se chame apenas Logan. Sem trazer seu nome de guerra (Wolverine) e nem fazer menção aos X-Men, o longa busca se distanciar daquele universo fantasioso e se estabelecer como um produto à parte; uma despedida descente do ator ao herói que lhe rendeu fama (Jackman declarou que essa seria a última vez que interpretaria esse papel). Por se tratar, então, da última cavalgada de um cavaleiro solitário, é mais do que justo que não haja menções à famosa equipe de mutantes. E dentro dessa proposta, a obra é bem sucedida ao investir em uma abordagem mais intimista. Isso não impede, porém, que apresente alguns problemas de desenvolvimento narrativo, tão comuns àqueles mesmos filmes que o título queria que esquecêssemos.

Escrito pelo diretor James Mangold (Wolverine: Imortal) em parceria com Scott Frank (também de Wolverine: Imortal) e Michael Green (Lanterna Verde), o roteiro se passa no ano de 2029, quando os mutantes são coisa do passado (ou quase). Logan vive próximo à fronteira EUA/México e ganha a vida dirigindo uma limusine para americanos ricos. Apresentando uma fragilidade que ainda não tínhamos visto, ele aparece fraco, velho e debilitado, chegando ao ponto de suas garras não saírem das mãos com a mesma facilidade – numa referência, proposital ou não, à sua virilidade. Já seu corpo coberto de cicatrizes e feridas abertas é um indicativo de que o fator cura não funciona mais tão bem como antigamente. Nesse cenário, ele precisa contrabandear remédios para cuidar do professor Xavier (Patrick Stewart), mantido dentro de uma estrutura de aço por conta de um incidente ocorrido no passado. Incumbido – a contragosto – da missão de proteger uma garotinha mutante, o protagonista e Xavier iniciam uma viagem para levar a menina a um local seguro, enquanto são perseguidos por um exército de mercenários interessado nos poderes da jovem mutante.

Logan não se trata de uma simples aventura baseada em quadrinhos, mas sim de uma jornada familiar. Assim, o ritmo frenético que normalmente é associado a estas produções dá lugar a uma narrativa mais lenta, que foca sua atenção naqueles indivíduos e não nas suas ações. Dá-se importância para a intimidade dos personagens e até mesmo algumas cenas de ação são filmadas de maneira a destacar as dificuldades enfrentadas por Logan – como na sequência no quarto de hotel, explorada de forma lenta e exaustiva. E não é por acaso que um dos melhores momentos do longa é aquele no qual o herói e sua trupe são abrigados por uma família que conheceram na estrada. É lá que ele se depara com problemas cotidianos, vividos por “pessoas normais”, e é lá que fica claro o seu deslocamento desse mundo real.

Essa mudança de tom é mérito de James Mangold, um cineasta versátil que consegue trilhar em diversos gêneros e estilos. Além da já mencionada fragilidade, Mangold explora outro lado do personagem que até então não tinha sido visto na telona: sua violência. A impressão que fica é que ao atender pelo seu nome, Logan pôde revelar sua verdadeira face. Visceral em seus combates, ele finalmente nos apresenta ao seu lado mais animalesco (algo sugerido em X-Men 2, mas proibido pela censura). São comuns planos que detalham as garras de adamantium atravessando cabeças e decepando membros. E também sofrendo bastante. Em determinado momento, o protagonista é retalhado por um forte inimigo, e o design de som destaca os barulhos da sua carne sendo cortada toda vez que uma lâmina penetra no seu corpo. Já a direção de fotografia investe em um tom árido na maior parte da narrativa, o que combina com a proposta de se tratar de um western sobre alguém deslocado do seu tempo, mas necessário em tempos de crise – como John Wayne em Rastros do Ódio ou Clint Eastwood em Os Imperdoáveis.

Porém, se James Mangold se mostra um ótimo diretor, suas habilidades como roteirista são questionáveis. Algumas das soluções que ele encontra para desenvolver a história são no mínimo preguiçosas – como a origem da jovem mutante, que é explicada por meio de um vídeo em um telefone celular. Da mesma maneira, o roteiro parece não confiar na inteligência do espectador, e sente a necessidade de repetir com diálogos tudo aquilo que já havia sido dito com imagens. A analogia com o western já tinha ficado subentendida, mas o texto faz questão não apenas de inserir uma cena do clássico Os Brutos Também Amam, como de repetir uma frase desse filme em outro momento. O uso de clichês também é um pouco frustrante, como a batida relação do velho herói e da criança prodígio – e não ajuda o fato de a garota parecer uma cópia da Eleven de Stranger Things (essa série pelo menos tinha a desculpa da metalinguagem para abordar temas requentados).

Ainda que em sua proposta Logan se difira dos demais longas estrelados pelo Hugh Jackman, seus defeitos o impedem de ser uma obra tão memorável quanto se propõe a ser. Pode-se dizer com segurança que esta é a melhor aventura-solo do Wolverine já lançada, mas sabemos que isso não significa muita coisa. Porém, se for para fazer uma comparação mais justa, é possível afirmar que este não é o melhor dos filmes sobre os X-Men, mas certamente é superior à maioria deles.

Logan (Logan)
Estados Unidos, 2017 – 137 min.
Direção: James Mangold. | Roteiro: Michael Green, Scott Frank e James Mangold.
Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Dafne Keen, Boyd Holbrook, Richard E. Grant.