Crítica: O Chamado 3


O cinema de terror norte-americano sempre teve uma forte tendência ao moralismo. Para citar apenas um exemplo, podemos olhar para o subgênero slasher das décadas 1970 e 1980. Apesar do uso extenso de sexo e violência, o subgênero é caracterizado como uma crítica à revolução sexual ocorrida nos anos anteriores (sexo equivale a morte; abstinência é igual a vida). Exemplos como esse acontecem o tempo todo ao longo da história. O medo nuclear, a ameaça comunista, a epidemia da AIDS; todos foram temas explorados para reforçar a ideia de uma sociedade aparentemente perfeita, ameaçada por forças externas, forças essas que fogem do conceito de “normalidade”. A diferença é que enquanto bons filmes conseguem driblar essas regras; outros servem apenas para reforçá-las. O Chamado 3 segue essa segunda linha, e de maneira bastante descarada.

O longa tem início num avião, onde vemos um passageiro temendo a sua morte iminente, já que faz uma semana que ele viu o famoso vídeo que mata. Quem lhe apresentou o vídeo foi uma garota que ele conheceu na sua viagem, sugerindo promiscuidade da parte dele – e, de certa forma, justificando o seu fim trágico. Dois anos após o ocorrido, vemos o professor Gabriel (Johnny Galecki, da série The Big Bang Theory) encontrando o velho videocassete pertencente à vítima no avião. Pouco depois de adquirir o equipamento, ele é visto em casa, onde acabou de fazer sexo com uma de suas alunas. Como se isso não fosse suficiente, o professor ainda acende um cigarro de maconha, selando o seu destino. A TV se liga sozinha e a fita começa a rodar. As imagens do mundo real e do vídeo passam a se fundir, e ele está condenado.

Somente após essas duas introduções que conhecemos a nossa protagonista. Interpretada por Matilda Lutz (L’Universale) como um poço de moral, a jovem Julia é vista trocando juras de amor com o seu namorado, Holt (Alex Roe, de A 5ª Onda), que vai para a faculdade, deixando-a sozinha. Fica claro que Julia abriu mão da faculdade para cuidar da sua mãe, por motivos que não são deixados claros – afinal, nunca vemos a mãe dela. Também é sugerido um sentimento de ciúmes do namorado em relação a um colega de trabalho de Júlia. Mas nada disso é mostrado, já que o texto parece mais interessado em partir logo para ação, esquecendo que desenvolvimentos como esses são necessários para que nos importemos com os personagens.

O roteiro explora algumas das “regras” estabelecidas desde o primeiro filme – como o fato de que é preciso copiar a fita e mostrá-la para outra pessoa para se livrar da maldição – e até introduz uma abordagem pseudocientífica para o fenômeno Samara Morgan. Desta forma, vemos um grupo de pesquisa que tenta desvendar os poderes da garota fantasma e estudá-los. Digo “vemos” porque esse é o máximo que temos acesso a essa temática que, caso fosse melhor trabalhada, seria muito interessante, como um esquema pirâmide mortal, alimentado pela curiosidade a respeito do sobrenatural. Em vez disso, porém, os roteiristas optam por um caminho bastante característico das trilogias de terror, tentando esclarecer a origem do mal, e ainda por cima relacionando-a com uma temática religiosa.

Todas essas escolhas servem para tentar explicar algo que não precisava de explicação. O mistério da origem de Samara é muito mais assustador do que sua origem. E o pior é que, mesmo assim, tais artifícios falham ao não conseguirem fazer exatamente isso. Muitas perguntas ficam em aberto e a subtrama sobre o desaparecimento de uma garota logo é esquecida, como se o seu paradeiro deixasse de ser importante, o que só enaltece a inutilidade daquele mistério.

Dirigido de maneira impessoal por F. Javier Gutiérrez (Tres Días), O Chamado 3 também falha ao não fazer o básico que se espera de um filme de terror: causar medo. O cineasta não consegue estabelecer um clima de tensão e não cria situações interessantes que causem sustos. Quando não está repetindo situações anteriores – como o glitch de Samara –, o diretor opta por clichês que não assustam justamente porque o espectador “adivinha” as coisas que vão acontecer. Na falta de criatividade, Gutiérrez apela para situações banais, como um guarda-chuva que se abre fazendo um estrondo, apelando para um susto barato. Mas falha até nisso e o que sobra é um longa de desenvolvimento fraco, que não envolve o público e o pior, é extremamente moralista.

O Chamado 3 (Rings)
Estados Unidos, 2017 – 107 min.
Direção: F. Javier Gutiérrez. | Roteiro: David Loucka, Jacob Estes e Akiva Goldsman.
Elenco: Matilda Lutz, Alex Roe, Johnny Galecki, Vincent D’Onofrio, Aimee Teegarden.

AVALIAÇÃO POR CATEGORIA
História e Roteiro:
Desempenho do Elenco:
Qualidade Técnica:
Direção:
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Daniel Medeiros é graduado em Cinema e Vídeo e formado nos cursos de Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica; e Jornalismo Cinematográfico - Crítica, Reportagem e Coberturas de Festivais. É membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE) e pesquisador sobre cinema de terror.
  • Muito ruim realmente… que roteiro cagado.

  • Jorge Freitas

    Com uma trama moralista, desconexa e nada assustadora, sequência caça-níquel enterra a franquia de vez no fundo do poço.

    (SEQUÊNCIA CAÇA – NIQUÉL ENTERRA A FRANQUIA DE VEZ NO FUNDO DO POÇO)

    (NO FUNDO DO POÇO)

    (DO POÇO)

    (POÇOOOO)

    * PALMAS PARA VC. TOCANTINS INTEIRO.