Crítica: The Monster


Uma mãe solteira precisa cuidar da sua criança enquanto ambas são ameaçadas por uma criatura sobrenatural que serve de metáfora para exacerbar os problemas de relacionamento que as duas têm. Essa temática já foi muito bem explorada no excepcional The Babadook, no qual o monstro do título explicitava discussões a respeito da maternidade. Apesar de similar, o recente The Monster segue por um caminho distinto. O foco sai da mãe e repousa sobre a criança, e a questão da maternidade – apesar de ainda ser importante – dá lugar ao amadurecimento, o chamado coming of age. E mesmo que esta seja uma temática já bastante explorada pelo cinema norte-americano, especialmente o independente, nem por isso deixa de ter um resultado interessante.

Escrito e dirigido por Bryan Bertino (Os Estranhos), o filme acompanha Kathy (Zoe Kazan), uma jovem uma mãe, e Lizzy (Ella Ballentine), sua filha pré-adolescente, em uma viagem de carro atravessando país. O objetivo da viagem é levar a garota para passar um tempo com o pai dela, porém a mãe sabe que a pequena provavelmente não vai mais voltar para casa. Isso porque Kathy tem sido uma péssima mãe. Durante a viagem, o clima é de despedida e o silêncio só é interrompido por diálogos que expressam o desconforto daquela situação. Após sofrerem um acidente, as duas ficam presas no meio do nada, esperando o guincho, e passam a ser ameaçadas por uma estranha criatura que reside na floresta ao lado da estrada.

A negligência e o alcoolismo da mãe fizeram com que Lizzy se forçasse a amadurecer mais rápido. Não demorou muito para que ela assumisse muitas das tarefas da casa, tendo até mesmo que cuidar da mãe quando esta tinha suas recaídas. Tudo isso é mostrado por uma série de flashbacks que ilustram a degradação daquela relação, culminando em declarações de ódio e atos de violência. E enquanto Kazan convence no papel de mãe apesar da sua aparência jovial, é Ella Ballentine o grande destaque da produção. A jovem atriz consegue trazer à tona todos os conflitos internos e a confusão da sua personagem, entregando uma atuação convincente e emocionante.

Aliás, alguns desses conflitos são explicitados de maneira bem direta pela abordagem de Bertino. É o caso do cachorro de pelúcia de Lizzy, que surge como o último resquício de uma infância roubada pelas responsabilidades da vida adulta precoce. Mesmo assumindo as responsabilidades da casa como uma adulta, a garota insiste em carregar o bichinho para todo o lado, contrariando a opinião da mãe de que ela já “está velha demais para isso” e preservando assim um último gesto de inocência e infantilidade. E não é nenhuma surpresa que, num momento chave, esse cachorro seja deixado para trás para ser dilacerado pelos medos da infância, aqui simbolizados na figura do monstro. É como se um ciclo tenha se completado e a infância tenha ficado, de uma vez por todas, para trás.

Hábil ao manter a tensão ao longo de toda a narrativa, Bryan Bertino acerta ao fazer do monstro uma presença quase fantasmagórica que ronda aquela estrada. Assim, as cenas mais assustadoras são aquelas nas quais ele aponta a câmera para a floresta escura e deixa que a imaginação do espectador faça o resto. E se tenho uma crítica negativa do filme é justamente o visual do monstro. Quando ele finalmente é mostrado na sua totalidade, revela uma maquiagem falsa e muito menos temível do que aquela que eu tinha montado na minha cabeça. Mas como na maior parte do tempo ele fica escondido na penumbra, pequenos equívocos como este não estragam o resultado.

The Monster
Estados Unidos, 2016 – 91 min.
Direção e Roteiro: Bryan Bertino.
Elenco: Zoe Kazan, Ella Ballentine, Scott Speedman, Aaron Douglas, Christine Ebadi.