Crítica: Doutor Estranho


Repetição. Essa parece ser a palavra de ordem na adaptação das HQs do Doutor Estranho, personagem criado por Stan Lee e Steve Ditko. Repetição no treinamento do herói, visando o aperfeiçoamento das suas habilidades e domínio dos poderes mágicos. Repetição narrativa, com as mesmas informações sendo (re)passadas diversas vezes, diminuindo a surpresa e aumentando a fadiga. E repetição temática, com aquela mesma história de origem que já foi contada diversas vezes no cinema. Isso, porém, não é “mérito” apenas deste filme. A própria Marvel Studios mostra-se cada vez mais fadada à repetição, entregando produtos idênticos em temática e tom. Uma fórmula serial cuja repetição as vezes resulta em algo diferenciado (como Guardiões da Galáxia), mas que na maioria das vezes soa apenas… repetitiva.

Escrito pelo diretor Scott Derrickson (A Entidade) em parceria com Jon Spaihts (Prometheus) e C. Robert Cargill (também de A Entidade), o roteiro acompanha o Doutor Stephen Strange (Benedict Cumberbatch), um médico talentoso e arrogante que perde a habilidade de realizar operações após um acidente de carro. Explorando ao máximo os recursos médicos ao seu dispor, e sem alcançar nenhum resultado satisfatório (para ele, pelo menos), Strange viaja até o Oriente em busca de tratamentos experimentais. Lá, ele conhece A Anciã (Tilda Swinton), que passa a lhe ensinar a arte dos poderes místicos, abrindo a sua mente para novos conhecimentos, novos universos e novas realidades; ao mesmo tempo em que ele passa por diversos treinamentos físicos ao lado de Mordo (Chiwetel Ejiofor). Em paralelo, Kaecilius (Mads Mikkelsen), um ex-pupilo da Anciã, tenta colocar em prática um plano maligno que (como era de se esperar) pode acabar com o mundo.

E sim, o visual da narrativa é um diferencial, até mesmo entre as produções do estúdio. A possibilidade de manipular tempo e espaço rende alguns momentos memoráveis, como o clímax, no qual o tempo se torna um inimigo ainda maior do que os próprios personagens. Porém, na maioria das vezes esse visual é empregado gratuitamente, seja em cenas inúteis (como a inicial, na qual vemos A Anciã lutando com Kaecilius, e tal combate não leva a lugar algum) ou apenas como pano de fundo (como naquela em que vemos A Anciã lutando com Kaecilius [de novo], e os prédios ao fundo ficam mudando de forma, sem que isso tenha importância alguma). Não que não seja interessante ver viagens psicodélicas e mudanças na arquitetura das cidades, mas não é nada que já não tenha sido visto antes em 2001: Uma Odisseia no Espaço e A Origem.

Ao contrário desses títulos, porém, Doutor Estranho é, acima de tudo, um típico produto da Marvel Studios, o que significa que qualquer urgência da trama é sabotada pela necessidade de se entregar um filme-família leve e descontraído. Assim, o longa até esboça uma discussão sobre o tempo, a vida e a morte, mas as constantes inserções de humor prejudicam qualquer tentativa de uma abordagem mais séria. E mais, o roteiro esquemático permite que o espectador “preveja” tudo que vai acontecer. Não que seja uma tarefa muito difícil. Afinal, quando se fala de maneira quase didática sobre a dimensão espelhada, sobre voltar o tempo e sobre loopings temporais, e em seguida vê-se o uso da dimensão espelhada e da volta no tempo, o que se espera que aconteça depois?

Encarnando o protagonista como uma mistura de Tony Star e Sherlock Holmes, Benedict Cumberbatch demonstra talento o suficiente para não tornar ridículos aqueles movimentos que ele faz para invocar seus poderes – feito que não é repetido por Mads Mikkelsen, vale destacar. Já Tilda Swinton consegue empregar serenidade à sua Anciã, entregando uma atuação bastante centrada e contida, mudando pouco a sua expressão e nada do seu tom de voz. Por fim, Chiwetel Ejiofor não tem espaço para desenvolver o seu personagem, o que não deixa de ser um equívoco, afinal, como é sugerido, ele terá uma grande importância daqui para frente.

Recentemente li um artigo do Hollywood Reporter que fala sobre a autoria (ou a falta de autoria) dos diretores de filmes da Marvel. Ainda que alguns cineastas consigam contornar isso, na maior parte dos casos estes são meros peões num modo de produção que lembra o da televisão (na qual são os produtores que detêm o controle criativo). De fato, Scott Derrickson até tenta dar um pouco da sua cara à Doutor Estranho, inserindo cenas violentas, sangue e morte. Mas ele apresenta dificuldade para se encaixar no estilo exigido pelo estúdio, e muitas das inserções de humor soam forçadas e sem graça. E não deixa de ser decepcionante que a Marvel tenha perdido a oportunidade de explorar a experiência de Derrickson (que veio do terror), usando-o como mão de obra barata para um trabalho sem personalidade, raso e – como era de se esperar – repetitivo.

Doutor Estranho (Doctor Strange)
Estados Unidos, 2016 – 115 min.
Direção: Scott Derrickson. | Roteiro: Jon Spaihts, Scott Derrickson e C. Robert Cargill.
Elenco: Benedict Cumberbatch, Rachel McAdams, Chiwetel Ejiofor, Tilda Swinton, Mads Mikkelsen.