Crítica: Entre Abelhas

Muito mais conhecido como o diretor do canal do YouTube Porta dos Fundos, o cineasta Ian SBF já tinha chamado a atenção pelos festivais por onde passou com o curta-metragem O Lobinho Nunca Mente, de 2007. Em 2011, ele também acertou ao dirigir o divertido e intrincado longa-metragem Teste de Elenco, outro trabalho pelo qual tenho grande admiração. E cito esses dois filmes no início desse texto porque acredito que Entre Abelhas, seu novo longa, seja uma espécie de mistura dos dois filmes mencionados, trazendo o humor e questionamento moral visto no primeiro e o exercício estilístico do segundo.

Escrito pelo próprio Ian ao lado do ator Fabio Porchat, o roteiro acompanha Bruno (Porchat), um homem deprimido por causa do súbito fim do seu casamento. Tendo que morar com a mãe (Irene Ravache) durante o processo do divórcio, a rotina de Bruno se resume ao seu emprego como editor e as ocasionais saídas com o amigo mulherengo Davi (Marcos Veras). A situação piora quando ele percebe que as pessoas ao seu redor estão desaparecendo (somente para ele), fazendo com que Bruno mergulhe num universo de crescente solidão à medida que todo o contato humano é exaurido da sua vida.

Ainda que seja classificado como uma comédia, o longa está longe do humor característico dos trabalhos de Ian para a internet. Existem sim momentos hilários, como aqueles envolvendo o ator Luis Lobianco, mas a ideia aqui é (assim como mencionado antes) misturar humor com um questionamento moral. E dessa forma, o sumiço das pessoas adquire um aspecto esclarecedor na vida do protagonista. Afinal, se todas as pessoas estão sumindo, não sobra ninguém para olhar a não ser para si mesmo. E com isso, os seus próprios defeitos se tornam cada vez mais evidentes.

Além de partir de uma ótima premissa, a grande sacada de Entre Abelhas reside na ausência de sentido único ou de uma explicação. Não é o fato que importa, mas sim a maneira como o personagem reage àquela situação. Isso abre espaço para diversas interpretações. Pessoalmente, vejo o filme como uma metáfora para o fim de um casamento e a – difícil – escolha de se seguir adiante. Sendo assim, a insistência de Bruno em investir num relacionamento que não tem mais futuro apenas faz com que ele se isole ainda mais do mundo, deixando de enxergar o que antes estava bem na sua frente.

Narrativamente o longa é um prato cheio, por possibilitar que o diretor aborde diferentes pontos de vista, confundindo o espectador, que muitas vezes não sabe se o que está vendo é a visão de Bruno ou a de outras pessoas. Além disso, ela permite a criação de algumas gags hilárias, como a cena da porta de vidro, ao mesmo tempo em que possibilita situações dramáticas, como a sequência do acidente de carro. Aliás, vale destacar também a atuação surpreendente de Fabio Porchat, que surge aqui muito mais contido do que se está acostumado a vê-lo, demonstrando um talento dramático até então pouco presente em sua carreira.

Ao final, Entre Abelhas é mais um excelente trabalho do cineasta Ian SBF. Só espero que não demore mais quatro anos até que eu possa ver outro filme dele.

Entre Abelhas
Brasil, 2015 – 99 min.
Direção: Ian SBF. | Roteiro: Fábio Porchat e Ian SBF.
Elenco: Fábio Porchat, Irene Ravache, Marcos Veras, Luís Lobianco, Letícia Lima, Giovanna Lancellotti.

AVALIAÇÃO POR CATEGORIA
História e Roteiro:
Nivel de Interpretação
Qualidade Técnica
Direção:
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Daniel Medeiros é graduado em Cinema e Vídeo e formado nos cursos de Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica; e Jornalismo Cinematográfico - Crítica, Reportagem e Coberturas de Festivais. É membro da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (ABRACCINE) e pesquisador sobre cinema de terror.