Crítica: Drácula – A História Nunca Contada


O filósofo britânico Francis Bacon costumava dizer: “A vingança é uma espécie de justiça selvagem”. Acreditando apenas nessa máxima, um dos maiores estúdios de cinema do mundo, contratou o inexperiente diretor Gary Shore – que só tem no curriculum um curta-metragem de 2006 -, separou um orçamento de 100 milhões de dólares e ordenou: faça-me o melhor filme sobre Drácula já feito! O resultado deste Drácula – A História Nunca Contada é uma tentativa mal sucedida de misturar Game of Thrones com Senhor dos Anéis, recheado de efeitos visuais e atores sem nenhum tipo de carisma envolvidos num roteiro que até a metade do filme funciona, para em seguida se transformar em um show da Broadway chato que nem de longe lembra os belos e assustadores longas estrelados pelo famoso conde vampiro.

Somos levados a conhecer detalhes de uma terrível guerra entre os turcos e romenos, quando o Império Otomano vivia o seu auge naquela região da Europa. Depois que uma criatura malévola (Charles Dance) mata soldados turcos nas montanhas da Transilvânia, o imperador Mehmed II (Dominic Cooper) acreditando ser os romenos responsáveis por aquela chacina, exige do pequeno reino o “pagamento” de 1000 crianças para serem treinadas como soldados. Vlad (Luke Evans), o governante local, aceita as condições a contra-gosto, entretanto, quando os inimigos escolhem também o seu filho, Vlad, O Empalador – como é “carinhosamente” conhecido – decide enfrentá-los. Para vencer a guerra, resolve fazer uma espécie de pacto com o monstrengo causador da cizânia, dando início a já conhecida história sobre vampiros e criaturas mitológicas.

A ideia da produção era dar início a uma saga que culminaria na história do Drácula, contada no filme de Coppola – os figurinos do protagonista são idênticos aos usados por Gary Oldman em Drácula de Bram Stoker. Criar esses “Begins” é interessante, diversas outras franquias estão seguindo os passos com sucesso. A questão é que, nesse caso, a combinação que os produtores almejaram, de um Drácula histórico com o do romance famoso, ficou bastante a desejar. O pior é que a obra até começa empolgante, com um início muito bem construído, convencendo com bons argumentos históricos. O problema é quando começa a entrar o fantástico na história e o castelo que estava sendo construído vira um calabouço exibicionista, muito mal dirigido e com interpretações nada convincentes.

Há uma quebra de ritmo, de cronologia, os efeitos visuais assumem o comando de tal maneira que qualquer movimento real feito, acaba se transformando em um grande show pirotécnico digital. É preciso ter alguém com experiência por trás das câmeras para saber como conduzir a história, por mais clichê que seja o roteiro. Ao término dos curtos 92 minutos, os dentes afiados, as bisonhas atuações, a sensação de estar assistindo a um filme de super-herói e a fraca direção acabam tornando Drácula – A História Nunca Contada não em algo assustador, mas em um frasco de Lexotan. Lugar de dormir é na cama, não no cinema.

Drácula – A História Nunca Contada (Dracula Untold)
Estados Unidos, 2014 – 92 min.
Direção: Gary Shore. | Roteiro: Matt Sazama e Burk Sharpless.
Elenco: Luke Evans, Sara Gadon, Dominic Cooper, Art Parkinson, Diarmaid Murtagh, Charles Dance.