Crítica: Os Mercenários 3


A esta altura do campeonato, com a franquia Os Mercenários estreando sua terceira aventura nos cinemas, acredito que ninguém em sã consciência vá ver o filme esperando encontrar uma história original. O grande apelo da cinessérie idealizada por Sylvester Stallone sempre foi a nostalgia, o “curriculum vitae” dos atores envolvidos, então não espere arroubos de criatividade em Os Mercenários 3. Afinal de contas, o cinema de ação onde Sly, Schwarza e sua turma se estabeleceram há mais de 30 anos nunca pediu roteiros complexos, mas situações onde tiros e sopapos resolvessem facilmente a questão.

O resultado beirando a auto-paródia vinha dando certo, mas, ao que tudo indica, Stallone e os demais produtores não estavam $atisfeitos. Agindo como verdadeiros mercenários, decidiram mexer na “fórmula” para contabilizar ganhos maiores: limaram o gore (cenas violentas com bastante sangue e vísceras) para a fita conseguir uma classificação etária mais branda e inseriram na trama personagens juvenis (completamente dispensáveis). Sly achou que era John Green ou J. K. Rowling e conseguiria dialogar com o público jovem. A decisão mercadológica equivocada não só extraiu parte do humor, como prejudicou o desenvolvimento da narrativa, transformando o longa num apanhado de explosões, tiros e batalhas repetitivas sem sentido.

O filme começa com uma sequência interessante, com o grupo resgatando o personagem de Wesley Snipes de um trem em movimento e partindo para a Somália. Numa operação em Mogadishu, Barney Ross (Stallone) descobre que um antigo desafeto, Conrad Stonebanks (Gibson), está vivinho da silva e se transformou num poderoso traficante de armas. O homem foi um dos fundadores dos Mercenários mas virou a casaca e Ross precisou matá-lo – ao menos, era isso que acreditava. A presença do vilão e o ferimento de um dos membros do grupo deixa Barney abalado a ponto de descartar sua fiel equipe e contratar novatos para capturar o criminoso. As motivações sentimentaloides para abdicar da sua turma não convencem seus colegas e muito menos o espectador. Quando a molecada é feita refém pelo bandido, ele precisa recrutar novamente seus time original e ir salvá-los.

Maior atração da fita, os novos veteranos tem seus momentos. Gibson, apesar da performance caricata entrega um vilão decente. Antonio Banderas, no papel de Galgo, um sujeitinho falastrão e hiperativo é o suposto alívio cômico da película. Já Snipes, solta algumas piadinhas quando aparece – inclusive trocadilhos infames sobre o período em que esteve preso de verdade por sonegação fiscal -, mas o seu Doc logo desiste da comicidade, o que é lamentável. No papel da chefão da CIA disposto a ajudar o grupo com suporte aéreo, o Max Drummer de Harrison Ford (que veio para substituir o Church de Bruce Willis) faz os fãs de Star Wars e Indiana Jones vibrarem, apesar de não aparecer muito – bom lembrar que estes superastros contratados trabalham pouquíssimo e ganham fortunas, cerca de US$ 3 milhões por quatro dias de trabalho, daí suas participações minguadas.

A coisa só não azeita pro lado dos novos integrantes. O pouco conhecido Glen Powell, o boxer Victor Ortiz, o crepusculete Kellan Lutz e a lutadora peso galo da MMA Ronda Rousey tem seus momentos quando a ação pega pesado, mas roubam um tempo inestimável do filme, que fica tentando provar o quanto eles são “legais”. Salva-se o epílogo, onde as duas gerações se encontram e o grupo compensa a falta de dramaticidade (e humor) enfrentando o exército inteiro de uma ex-república soviética. Diante da violência light a qual a obra se propõe, o pouco experiente diretor Patrick Hughes até que se sai bem comandando o espetáculo pirotécnico.

Em sua decisão de abarcar um público mais abrangente para Os Mercenários 3, Sly tratou com descaso e hipocrisia o espectador cativo da série que cresceu assistindo aos “filmes de macho” protagonizados por ele e sua trupe. O resultado é uma obra vazia, onde a química entre o elenco dissipou e, com isso, o ritmo e a interatividade com a plateia. Apesar da fórmula desgastada, seria uma lástima deixar este longa encerrar a franquia. Aparada as arestas e consertados os deslizes cometidos aqui, não sei quanto a vocês, mas eu certamente retornaria aos cinemas para ver Jean Reno, Jackie Chan e/ou Nicolas Cage, entre outros astros que Stallone anda propagando ao quatro ventos como possíveis contratados, se juntar ao time numa próxima fita.

Os Mercenários 3 (The Expendables 3)
Estados Unidos, 2014 – 126 min.
Direção: Patrick Hughes. | Roteiro: Sylvester Stallone, Creighton Rothenberger e Katrin Benedikt.
Elenco: Sylvester Stallone, Jason Statham, Harrison Ford, Mel Gibson, Wesley Snipes e Antonio Banderas.