Crítica: Godzilla


É no mínimo interessante perceber que um filme que é um blockbuster por excelência se preocupa com o desenvolvimento dos seus personagens e com uma abordagem humana da temática proposta, por mais absurda que essa proposta seja. Esse é o caso de Godzilla, novo trabalho do cineasta Gareth Edwards (do ótimo Monstros).

Escrito pelo novato Max Borenstein (com alguma ajuda de outros roteiristas), o intrincado roteiro tem início na década de 1990, mostrando o cientista Ichiro Serizawa (Ken Watanabe) descobrindo uma gigantesca ossada durante uma escavação, e constatando que um filhote daquela criatura pré-histórica pode ter escapado. Uma década depois, esse ser é responsável pela destruição de uma usina nuclear no Japão, causando uma tragédia na vida de Joe Brody (Bryan Cranston). Mais 14 anos depois, Brody ficou obcecado com os eventos anteriores, o que o levou a se afastar do seu filho Ford (Aaron Taylor-Johnson). Quando Joe é preso no Japão tentando entrar numa zona de quarentena, Ford precisa resgatá-lo, somente para descobrir que as teorias conspiratórias do seu pai não estavam erradas. É então que um ser gigantesco inicia um rastro de destruição ao redor do mundo.

Pela sinopse acima, é possível perceber que, ao menos inicialmente, a presença do monstro-título fica em segundo plano, dando mais espaço para que seja desenvolvida toda uma subtrama sobre uma família em conflito. Tal decisão se mostra hábil ao conferir humanidade à história, provocando uma imediata aproximação do espectador para com aqueles personagens (também ajuda a utilização de rostos tão conhecidos em papéis pequenos).

Hábil ao criar suspense escondendo o visual da criatura, algo que já tinha sido explorado no seu filme anterior (ainda que, naquele caso, o motivo era o orçamento limitado), Gareth Edwards demonstra um exímio controle narrativo, buscando manipular de forma saudável a expectativa do público, guardando a exposição completa do monstro gigante para um momento chave… e incrível. Não só isso, mas o diretor também sabe conceber sequências de ação memoráveis, como aquela dos soldados pulando de paraquedas.

Vale mencionar também que os fãs de Godzilla vão se deliciar (e delirar) com as referências à mitologia da criatura, que conferem não servem somente para dar um ar nostálgico, mas são usadas organicamente na história. Além do mais, é feito um interessante paralelo entre a jornada do herói e a jornada do monstrão, algo ilustrado por uma troca de olhares entre os dois e pela maneira como, em certo momento, ambos desabam, sem forças, simultaneamente – o que, novamente, reforça esse lado humano da história.

Ainda que a narrativa “esqueça” de alguns atores depois de um tempo (em especial a bela Elizabeth Olsen, que pouco tem a fazer em cena), Godzilla compensa os seus equívocos ao entregar um resultado que consegue ser saudosista ao mesmo tempo em que insere o monstro num mundo contemporâneo – é impossível não comparar o tsunami causado pela sua presença com aquele que aconteceu de verdade em 2004. Trata-se de um ótimo filme, claramente feito por quem (e para quem) gosta do assunto.

Godzilla (Godzilla)
Estados Unidos, 2014 – 123 min.
Direção: Gareth Edwards. | Roteiro: Max Borenstein.
Elenco: Aaron Taylor-Johnson, Elizabeth Olsen, Ken Watanabe, Bryan Cranston, Sally Hawkins, David Strathairn.