Crítica: O Grande Herói


Assim como Michael Bay, o diretor Peter Berg é um típico “funcionário padrão” acostumado a trabalhar com blockbusters escapistas e orçamentos inchados – Hancock (2008) e Battleship: A Batalha dos Mares (2012) levam sua assinatura. Sendo assim, é deveras surpreendente ver seu nome associado a este O Grande Herói, não só por se tratar de um projeto menor e mais intimista, com menos grana envolvida, mas também por sua qualidade, quiçá um dos melhores trabalhos do cineasta até então.

A trama do filme, escrita pelo próprio Berg a partir do livro de Marcus Luttrel e Patrick Robinson, é baseada na missão verídica “Operação Asa Vermelha”, realizada em junho de 2005, quando uma equipe de Navy Seals, a elite da marinha norte-americana, adentrou secretamente o sul do Afeganistão com o objetivo de eliminar o talibã Ahmad Shah, homem de confiança de Osama Bin Laden. Uma decisão equivocada faz com que a missão fracasse, levando o grupamento, formado por apenas quatro homens, ficar encurralado numa área montanhosa por 250 soldados da Al-Qaeda.

O que vem a seguir são cenas viscerais e ultra-realistas. Apesar do título e o cartaz do filme entregar quantos sobreviverão até o final, Berg conduz sua trama de forma tão eficiente, caprichando na tensão e na brutalidade das imagens, que o espectador até esquece o spoiler. As sequências de ação impressionam, com os SEALs levando tombos, cortes, tiros e quebrando ossos em sua fuga desesperada pelos desfiladeiros pedregosos. A sensação de veracidade é tamanha, que a gente até esquece o patriotismo exacerbado presente na história para torcer pelos “mocinhos”.

Essa identificação acontece por conta também do ótimo desempenho do quarteto de protagonistas e a química que rola entre eles. Mark Wahlberg (Sem Dor, Sem Ganho), Emile Hirsch (Killer Joe), Ben Foster (O Mensageiro) e até o pé frio Taylor Kitsch (John Carter, Battlefield) convencem em seus papeis, sobretudo nas cenas mais intensas, após o cerco inimigo, quando os diálogos são mínimos e seus rostos demonstram cansaço e dor. Ninguém aparece mais do que o outro e todos tem seus momentos. O filme ainda conta com uma participação menor mas significativa de Eric Bana (Munique), como o oficial responsável pelo comando da operação.

Mesmo cheio de predicados, O Grande Herói não evita os típicos clichês de propaganda ideológica norte-americana. A sequência de abertura, onde imagens reais mostram o duro treinamento dos SEALs, e os créditos, onde cenas dos soldados verdadeiros são exibidas como tributo, não foram escolhidas por acaso, nem estão ali apenas para aumentar a dramaticidade. O objetivo do roteiro é transformar os fuzileiros em arquétipos de conduta a serem seguidos, símbolos de austeridade, determinação e senso de dever. Essa tentativa de glamourização da vida militar e uma certa pieguice próximo do desfecho ofuscam o computo final, mas não tiram o brilho da película, um eficiente filme de guerra como não se via desde Falcão Negro em Perigo (2001).




O Grande Herói (The Lone Survivor)
Estados Unidos, 2014 – 121 min.
Direção e Roteiro: Peter Berg.
Elenco: Mark Wahlberg, Taylor Kirsch, Ben Foster, Emilie Hirsch, Eric Bana, Yousuf Azami.

  • Gabriel

    Realmente, o melhor filme de guerra dos últimos tempos, pra mim, Guerra ao Terror foi o último grande. Achei um dos melhores filmes do ano, apesar do patriotismo exacerbado. Na minha opinião, o filme foi altamente realista e te deixa agoniado do início ao fim, a primeira hora, talvez um pouco mais, é de tirar o fôlego, você prende mesmo a respiração em certas cenas. Excelentes atuações, direção e roteiro. Visto os filmes do Oscar desse ano, achei que poderia ter sido mais bem explorado pela academia.