Crítica: Trapaça


Divisor de opiniões, Trapaça não é desprezível como vêm afirmando alguns, mas também não é um primor de obra que justifique tantas indicações para tantos prêmios, inclusive o Oscar – o longa recebeu dez indicações. A aparente explicação para o buzz está no visual do filme, cujo elemento nostálgico resgata com primazia o estilo bem peculiar de um tempo passado, no caso a década 1970 (roupas, cenários, músicas), algo que agrada e sempre fascinou Hollywood. Dirigido pelo competente David O. Russell (O Vencedor, O Lado Bom da Vida) e estrelado por um leque de atores que estão entre os mais populares da atualidade, a fita compensa sua falta de ritmo com performances inspiradas.

A história começa em 1978, quando o malandro Irving Rosenfeld (Christian Bale) se apaixona pela sedutora ex-striper Sydney Prosser (Amy Adams) e faz dela parceira em seus golpes de estelionato. Pegos em flagrante por Richie DiMaso (Bradley Cooper), um descontrolado agente do FBI, eles são obrigados a participar de uma operação secreta do governo com o objetivo de desmascarar uma rede de corrupção que se estende de Atlantic City a Washington. Rosenfeld volta e meia alerta DiMaso dos perigos envolvendo políticos, mas o federal está determinado a capturar os peixes grandes, sobretudo Carmine Polito (Jeremy Renner), badalado prefeito de Atlantic City. O esquema acaba se revelando maior do que eles imaginavam, com o envolvimento de mafiosos da Costa Oeste.

No início do longa, uma mensagem avisa que parte da trama é inspirada em fatos. O texto de Eric Warren e do diretor Russell baseia-se na história real Abscam, operação montada pelo FBI para combater crimes do colarinho-branco. A agência federal inventou um xeique árabe fictício, Kraim Abdul Rahman (encarnado por Micha Peña na película), para filmá-lo oferecendo dinheiro a congressistas dos EUA em troca de favores políticos. O cabeça da tramoia era Melvin Weinberg, trapaceiro condenado pela justiça que foi “contratado” pelo FBI para auxiliar Abscam. O script estava desde 2010, na famosa Black List, lista mantida pelos estúdios de Hollywood com os melhores roteiros ainda não filmados – e de onde também saiu Argo, vencedor do Oscar de Melhor Filme em 2013.

Sem sombra de dúvida, a melhor coisa na fita é o desempenho do seu elenco, sobretudo as mulheres. Christian Bale, que exibe uma enorme pança, fruto dos mais de 20kg adquiridos para o papel, está ótimo como o inteligente e vaidoso Irving; e Bradley Cooper, de cabelo encaracolado, convincente ao interpretar o patético e temperamental agente do FBI. Os garotos fazem sua parte, mas é Jennifer Lawrence e Amy Adams que roubam a cena. A primeira, vivendo a vulgar e imatura esposa do personagem de Bale, está sensacional. Jennifer nos hipnotiza com seu tipo barraqueira de língua solta que não admite ser contrariada. Lamentável que apareça pouco em cena. Já Adams, transpirando sensualidade e sempre trajando vestidos de generosíssimos decotes, dá um show como a picareta Sidney, uma mulher frágil que usa da sedução (e um falso sotaque britânico) para sobreviver.

A fotografia, o design de produção e a direção de arte exuberantes são outros elementos que também merecem ser mencionados. Aliados aos figurinos glamorosos e a cativante trilha sonora, ajudam a recriar com eficácia o período retratado. Sobram qualidades na área técnica e nas atuações do luxuoso elenco, mas falta esmero no roteiro e na condução do filme. A sensação ao assistir Trapaça, é de ver um “Martin Scorsese requentado” (sem o mesmo ritmo e a violência característica). A história, contada de forma verborrágica, tem sabor de deja vu e peca pela falta de intensidade. As compensações já citadas ajudam a minimizar o estrago, mas não afastam o pensamento leviano de que, talvez, o filme tenha sido realizado apenas com o objetivo de ganhar prêmios. Se assim for, não poderia haver título mais condizente.

(3.5/5)
Trapaça (American Hustle)
Estados Unidos, 2013 – 138 min.
Direção: David O. Russell. | Roteiro: Eric Warren e David O. Russell.
Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Jeremy Renner.