Crítica: Ela


Dizem que genialidade e loucura se misturam. Será? Num contexto onde “genialidade” é a capacidade de fazer e criar coisas que não são convencionais e “loucura” seja um comportamento psicológico instável (ou seria o contrário?), Spike Jonze é uma das melhores representações dessa dicotomia. Capaz de produzir e escrever bobagens como o recente Vovô Sem Vergonha (e todos os “filmes” da franquia Jackass), o cineasta também é o responsável pelos criativos e surpreendentes Quero Ser John Malkovich, Adaptação e agora Ela, sua obra mais sensível e bonita, até então.

A trama se desenrola num futuro próximo, onde a tecnologia já foi completamente incorporada ao dia-a-dia e está presente em todos os lugares, funcionando através de um simples comando de voz. Neste mundo frio onde as relações pessoais foram colocadas de lado, vive Theodore Twombly (Joaquin Phoenix), um sujeito solitário e introspectivo. As suas interações humanas se resumem ao colega da agência (Chris Pratt) onde trabalha como ghostwriter de cartas de amor – afinal de contas, ninguém mais tem tempo para isso — e a amiga da época de faculdade, Amy (Amy Adams), que mora no mesmo prédio que ele.

Theodore está infeliz e luta para superar o casamento fracassado com Catherine (Rooney Mara), de quem não consegue se libertar. Certo dia, perambulando pela cidade, ele vê o anúncio de um produto revolucionário: o OS1, o primeiro sistema operacional com inteligência artificial do mundo. O programa, dotado de uma compreensão mais subjetiva das coisas e capaz de mimetizar emoções e sentimentos, rapidamente torna-se o companheiro perfeito do carente Theodore. Ou melhor, a companheira perfeita, porque, como se não bastasse todas as qualidades citadas, o software — que atende pelo nome de Samantha — tem também a voz sensual de Scarlett Johansson.

Afeito a tecnologia, Jonze já havia feito uma abordagem parecida em I’m Here, curta-metragem onde dois robôs se apaixonam. Em Ela, o cineasta vai além ao proporcionar um relacionamento amoroso entre máquina e humano, numa sociedade “desenvolvida”(leia-se em avançado estágio de distanciamento) a tal ponto que a relação não precisa ser escondida nem é vista com estranheza pela grande maioria. Theodore utiliza um aparelho que se assemelha muito aos smartphones atuais – especialmente o iPhone, que possui o Siri, software de reconhecimento de voz. Neste quesito, o roteiro genial assusta ao mostrar algo possível. Embora o longa ofereça uma espécie de crítica a um futuro bem próximo (ou seria o presente?), Jonze não condena o uso excessivo da tecnologia em substituição as relações humanas, visto que seu protagonista (re)encontra a vontade de viver e evolui enquanto experimenta possibilidades de interação — incluindo uma “dublê de corpo” voluntária — com a nova parceira.

A direção de arte é sutil, mostrando uma realidade semelhante a nossa, com algumas intervenções tecnológicas, mas bem distante da proposta cyberpunk. Os figurinos evocando os anos 1960-1970 e a fotografia belíssima que trabalham em harmonia, alternando tons pasteis com cores quentes – refletindo o estado de espírito de Theodore -, parecem fazer alusão a alguns filtros disponíveis nas câmeras dos smartphones atuais. Outro ponto alto é a trilha sonora do Arcade Fire (criada pelo maestro Will Butler e o compositor Owen Pallett) que casa perfeitamente com a atmosfera melancólica da película.

A fita de Jonze é repleta de acertos, mas o seu alicerce é mesmo Joaquin Phoenix. Em mais uma atuação inesquecível desde o seu retorno pós-aposentadoria fake – ele deu uma entrevista bizarra ao programa do David Letterman em fevereiro de 2009 afirmando que iria abandonar o cinema -, Phoenix com visual Belchior em início de carreira, entrega uma performance poderosa repleta de nuances, tão intensa quanto seu trabalho em O Mestre (2012). Theodore Twombly é hipnotizante, uma versão 2.0 de Leonard Kraditor, personagem interpretado pelo ator em Amantes (2008), que carrega muitas semelhanças com o protagonista de Ela – ambos são nostálgicos, marcados por um relação desastrosa. Destaque também para Scarlett Johansson, emprestando sua voz para o SO1 e ampliando o imaginário do filme, num trabalho vocal excelente.

“Qualquer pessoa que se apaixone é uma aberração. É algo louco de se fazer. Uma forma socialmente aceitável de insanidade”, dispara a personagem de Amy Adams, resumindo pragmaticamente o conceito do longa. Obra delicada e poética, Ela é um filme que fala do amor (e suas consequências) de maneira sui generis, desafiando os limites físicos e da interação social. O roteiro, que questiona o tipo de relacionamento que almejamos para amadurecer, também abre espaço para outros temas interessantes, principalmente o caminho que está sendo traçado pela humanidade, cujo anseio de interagir com o mundo de forma absoluta, está tornando-a cada vez mais individualista e dependente de algumas tecnologias.




Ela (Her)
Estados Unidos, 2013 – 126 min.
Direção e Roteiro: Spike Jonze.
Elenco: Joaquin Phoenix, Amy Adams, Chris Pratt, Rooney Mara, Scarlett Johansson, Portia Doubleday.