Crítica: Clube de Compras Dallas


Indicado ao Oscar de Melhor Ator, no domingo, 2 de março, Matthew McConaughey vai subir ao palco do Dolby Theater para receber sua estatueta dourada. E isto é um fato. Só um “milagre” tira o prêmio das mãos do ator. Primeiro, porque este Oscar, veladamente, é o reconhecimento de uma série de atuações memoráveis recentes – cuja imprensa batizou de McConaussense – que começou em 2011 com O Poder e A Lei, passando por Killer Joe e Amor Bandido até consolidar neste Clube de Compras Dallas. Segundo, porque a Academia de Hollywood adora atores que topam transformações radicais, emagrecem muitos quilos e se embarangam para encarnar personagem.

O longa, baseado numa história verídica, traz McConaughey interpretando Ron Woodroof, um cowboy texano que descobre ser portador do vírus HIV, em meados dos anos 1980. Machista, mulherengo, preconceituoso (sobretudo contra homossexuais), e usuário incontrolável de drogas e álcool, Woodroof é pego de surpresa e não aceita o diagnóstico médico de que lhe restam pouco mais de 30 dias de vida. Acontece que, naquela época, as particularidades sobre a AIDS – formas de contágio, precaução e tratamento – eram ainda incipientes, coisa que Woodroof descobre da pior forma, quando o mesmo hospital que lhe deu o diagnóstico nega a possibilidade dele fazer parte do grupo de testes do medicamento AZT.

O desespero e a obstinação levam Ron a mergulhar de cabeça no mundo clandestino da indústria farmacêutica. Inicialmente, subornando um enfermeiro para conseguir o AZT, posteriormente buscando ajuda no México, onde é tratado com um leva de drogas experimentais não aprovadas pelo FPA (equivalente nosso a ANVISA; instituto responsável por aprovar todo medicamento e alimento vendido nos Estados Unidos). Ao enxergar nos métodos alternativos uma possibilidade de negocio, ainda que ilícito, ele une-se ao amigo Ryon (Jared Leto), numa lucrativa operação contrabandeando remédios não-sancionados pelo órgão de saúde americano, porém, mais efetivos no tratamento da doença.

Mesmo desprezível, é difícil não apiedar-se do sujeito, que além da saúde debilitada, precisa lidar com o preconceito dos amigos e com o dele próprio. O roteiro didático segue a risca “os cinco estágios do luto” descritos por Elisabeth Kübler-Ross em seu livro Sobre A Morte e O Morrer: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Nesse ambito, o longa emociona e diverte – mesmo preso a clichês e problemas na narrativa – mostrando a evolução do personagem, que abandona a ignorância, a homofobia, em prol da luta pela vida e o reencontro com a felicidade. A qualidade cai no segundo ato quando entra em cena o verdadeiro vilão do filme, o governo norte-americano, com quem Woodroof vai travar longas batalhas.

Ainda que titubeante, o roteiro da dupla Craig Borten e Melisa Wallack, funciona como um importante registro de uma época quando a AIDS surgiu em meio ao público, provocando falácias e má-interpretações. Ao mostrar como um homem comum foi capaz de enfrentar a burocracia do sistema médico – sustentado pelo lobby violento advindo dos poderosos conglomerados farmacêuticos – e suplantar a conformidade que lhe foi imposta, a película do canadense Jean Marc Vallée também abre espaço para uma importante discussão ética.

Clube de Compras Dallas não é um filme primoroso mas tem em McConaughey e Leto dois grandes trunfos, grandes o suficientes para fazer a obra permanecer na memória como uma experiência positiva. Além da transformações corporais assustadoras – de uma magreza excessiva -, os dois entregam performances viscerais e tocantes, sobretudo Leto, que demonstra uma sensibilidade extrema ao compor seu personagem – um transsexual soropositivo -, exibindo um lado feminino sem muita afetação, mesmo nas cenas onde aparece bastante debilitado sem sua maquiagem colorida. Quando estes dois estão juntos em cena, a tela se ilumina, ora para nos fazer sorrir, ora para nos partir o coração.




Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club)
Estados Unidos, 2013 – 117 min.
Direção: Jean-Marc Vallée. | Roteiro: Craig Borten e Melisa Wallack.
Elenco: Matthew McConaughey, Jennifer Garner, Jared Leto, Denis O’Hare, Steve Zahn, Griffin Dunne.