Crítica: Como Não Perder Essa Mulher


É sempre interessante quando um ator já estabelecido resolve se arriscar na direção. Ainda que isso nem sempre resulte em um trabalho bem sucedido, o esforço é sempre válido. E foi assim que surgiram grandes cineastas, como Clint Eastwood (Menina de Ouro), Kenneth Branagh (Operação Sombra – Jack Ryan) e, mais recentemente, Ben Affleck (Argo). Como Não Perder Essa Mulher marca a estreia do ator Joseph Gordon-Levitt (Looper: Assassinos do Futuro) no comando de um longa-metragem, e mesmo que ele não chegue a se igualar aos outros nomes citados anteriormente, aponta um futuro promissor.

Escrito pelo próprio Gordon-Levitt (que também estrela o filme), o roteiro acompanha a rotina de Jon, um sujeito com poucos interesses na vida: seu corpo, seu apartamento, seu carro, sua família, sua igreja, seus amigos, suas (muitas) mulheres e sua pornografia. Mas quando ele conhece a bela Barbara (Scarlett Johansson, de Os Vingadores), uma garota que foi educada romanticamente por meio do cinema, ele precisa abdicar de muitos dos seus interesses para manter essa garota que parece ser ideal.

Mantendo-se numa zona de segurança como roteirista, Gordon-Levitt não se arrisca muito ao abordar apenas tangencialmente temas que poderiam ser considerados polêmicos ou controversos, como o questionamento da religião, o culto excessivo à imagem, e o vício em pornografia. Tudo isso é mencionado, mas nunca excessivamente, visando não abandonar o clima leve da narrativa. Da mesma maneira, o roteirista opta por inserir o recurso da narração em off como forma de aproximar o seu protagonista do público – afinal, fica mais fácil do espectador se identificar com o personagem, por pior que ele seja, quando podemos ouvir seus pensamentos.

Como realizador, porém, Joseph Gordon-Levitt mostra-se extremamente seguro, investindo em repetições e sutilezas que são muito bem aproveitadas ao longo da narrativa. Similar ao seu personagem, o cineasta é metódico ao explorar a rotina de Jon, que é sempre enquadrado no mesmo ângulo quando vai para a igreja, para a academia, pra balada ou pra cama (onde repete a mesma posição sexual).

Sendo assim, o diretor consegue estabelecer uma rotina e desestruturá-la de forma sutil, por meio de pequenas mudanças na vida do protagonista: percebemos que ele está apaixonado quando ele se masturba com fotos da namorada, e não com vídeos pornográficos, mas também percebemos que alguma coisa está errada quando é visto que ela não compartilha de muitos dos seus interesses, como o fato dele gostar de limpar a própria casa.

Por mais que se trate de uma proposta relativamente simples do ponto de vista narrativo, isso não tira o mérito de Gordon-Levitt, que se revela um diretor criativo e bastante atento à linguagem cinematográfica – o fato de utilizar câmera na mão em cenas específicas (como na hora em que Jon é flagrado se masturbando) é prova disso. Além de uma ótima comédia, Como Não Perder Essa Mulher pode ser também o primeiro filme de um excelente cineasta. Quem sabe? Que venha o seu próximo projeto.

(3/5)
Como Não Perder Essa Mulher (Don Jon)
Estados Unidos, 2013 – 90 min.
Direção e Roteiro: Joseph Gordon-Levitt.
Elenco: Joseph Gordon-Levitt, Scarlett Johansson, Julianne Moore, Tony Danza, Brie Larson.