Crítica: Ajuste de Contas


Seja dirigido, escrevendo ou produzindo, a filmografia do cineasta Peter Segal é 100% composta de comédias. Especialista no gênero, o sujeito está acostumado a tirar leite de pedra, assinando a direção de alguns dos poucos filmes que prestam na carreira de Adam Sandler – Tratamento de Choque, Como se Fosse a Primeira Vez, Golpe Baixo. Então, se Ajuste de Contas – um drama disfarçado de comédia – funciona (ao menos como diversão descompromissada), o crédito não pode ficar apenas com os sessentões pesos pesados de Hollywood, Sylvester Stallone e Robert De Niro.

Na trama, acompanhamos a vida de dois ex-campeões mundiais de boxe que não sobem aos ringues há mais de três décadas. Henry “Razor” Sharp (Stallone) é um homem solitário que leva uma vida simples na mesma cidade onde virou ídolo e trabalha numa fábrica prestes a fechar. Já Billy “The Kid” McDonnen (De Niro) é um empresário bem sucedido, dono de um restaurante e uma loja de automóveis que não consegue esquecer sua única derrota na carreira. Os pugilistas travaram duas lutas memoráveis nos anos 1980, com um resultado favorável para cada um deles. O desempate nunca aconteceu, porque Razor se aposentou de maneira inesperada.

Depois de se desentender e sair na porrada durante as gravações para um game de boxe, Razor e Kid tem a oportunidade de descobrir finalmente quem é o melhor, uma vez que a pancadaria no estúdio foi registrada em vídeo e se transformou em virais de sucesso na internet. Entra em cena um promotor de lutas falastrão (Kevin Hart, um Eddie Murphy chato) disposto a reviver os dias de glória dos antagonistas.

Espécie de homenagem bem-humorada aos clássicos de boxe estrelados por Stallone (franquia Rocky) e DeNiro (Touro Indomável) nos cinemas, Ajuste de Contas alterna momentos geniais com outros absolutamente sem graça. O maior erro do roteiro é justificar a rivalidade dos boxers com a presença de Kim Basinger. A loira, aos 60 anos, ainda dá um caldo, mas seu personagem insosso nada acrescenta ao filme, que não abre espaço para o romance e muito menos dramas familiares – um filho negligenciado de McDonnen (interpretado por Jon Bernthal, o Shane de Walking Dead) aparece no segundo ato. Salvam-se as ofensas hilárias, o treinador resmungão vivido por Alan Arkin e as referências aos longas estrelados pelos dois protagonistas no passado.

Mesmo pecando em vários momentos – diálogos que não funcionam, ritmo lento, gênero inconsistente -, o tributo nostálgico a estes dois ícones do boxe, ou melhor, do cinema, não chega a ser um desperdício. O longa ainda arrisca uma crítica a geração digital, debochando dos atuais programas de televisão e do culto as pseudo-celebridades, surgidas a partir dos videos toscos que geram milhões de acessos e se proliferam no Youtube. Se você tem mais de 30 anos e/ou conhece a filmografia dos astros principais, certamente vai dar boas risadas. E não perca a hilariante cena extra exibida quando os créditos já estão subindo a tela.

(3/5)
Ajuste de Contas (Grudge Match)
Estados Unidos, 2013 – 113 min.
Direção: Peter Segal. | Roteiro: Tim Kelleher e Rodney Rothman.
Elenco: Robert De Niro, Sylvester Stallone, Kim Basinger, Kevin Hart, Alan Arkin.