Crítica: Jogos Vorazes – Em Chamas


Ainda que não seja necessariamente uma regra, trilogias normalmente funcionam da seguinte maneira: o primeiro capítulo é destinado para apresentar o universo narrativo; o segundo serve para estabelecer esse universo e, possivelmente (mas não em todos os casos) dar início ao que seria a completa reversão desse estado inicial; culminando no terceiro onde, ao final, toda a realidade vista anteriormente muda de figura e é apontado um caminho completamente diferente daquele visto no início do primeiro filme. Jogos Vorazes: Em Chamas, segundo capítulo da franquia cinematográfica iniciada em 2012, parece estar seguindo por esse caminho, e com resultados cada vez melhores.

Se no primeiro Jogos Vorazes foi estabelecido o universo onde se encontravam aqueles personagens, uma América fictícia onde a cada ano duas pessoas de cada distrito eram selecionadas para uma batalha até a morte – numa espécie de política de pão e circo futurista – como forma de controlar o ânimo da população e fazê-los aceitar a realidade do jeito que ela é; nesse novo episódio, a jovem Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) é vista como um símbolo de esperança para a população dos distritos mais pobres, o que o presidente Snow (Donald Sutherland) enxerga como um problema, uma vez que a ideia de um líder popular pode acarretar em tumultos que levariam a uma revolução. A solução encontrada para eliminar o problema é colocá-la novamente para competir numa edição especial dos Jogos Vorazes, de novo ao lado de Peeta Mellark (Josh Hutcherson), dessa vez enfrentando os vencedores de edições anteriores.

Apesar de tratar de um mundo imaginário, o roteiro escrito por Simon Beaufoy (Amor Impossível) e Michael Arndt (Oblivion), com base no livro de Suzanne Collins, é repleto de subtextos sociopolíticos que se encaixam perfeitamente na nossa sociedade contemporânea, como a distribuição desigual de rendas (vencedores do torneio tem direito a luxos que são negados ao restante da população), divisão de fronteiras (a capital é rica e os distritos mais afastados são pobres) e é claro, a fome (na capital eles tomam uma bebida para poder vomitar e comer mais). Além disso, os roteiristas ainda abordam questões como a manipulação da informação e o controle de massas por meio de entretenimento barato, fatores também comumente vistos na nossa realidade – e o fato do governo obrigar os vencedores da edição anterior a visitarem os outros distritos (lar das pessoas que eles mataram) demonstra bem o tipo de liderança autoritária e ditatorial (e doentia) que controla a vida daqueles cidadãos.

E mesmo que a relação entre os dois personagens principais demore a engrenar ou de apelar para alguns diálogos auto-explicativos, o texto acerta ao desenvolver bem seus protagonistas: Katniss aparece aqui traumatizada por causa dos eventos vistos anteriormente, o que naturalmente a leva a questionar aquilo que foi obrigada a fazer; e Peeta, ao contrário, parece mais calmo, talvez por perceber que apesar de toda a violência que o evento trouxe para sua vida, ele também foi responsável por aproximá-lo de Katniss. Ao contrário de histórias similares (como Crepúsculo), grande parte do sucesso de Em Chamas se deve à dinâmica do triângulo amoroso central, completado pelo compreensivo Gale (Liam Hemsworth), que assume a sua posição de impotência em relação ao poder de um sistema que não só afasta-o da sua amada como, e mais importante, afasta ela dele, o que consequentemente mexe com os sentimentos da garota (créditos à Jennifer Lawrence por conceber uma personagem tão multifacetada e tridimensional).

Assumindo a direção no lugar de Gary Ross, o cineasta Francis Lawrence (Eu Sou a Lenda) mantém a qualidade do longa original ao mesmo tempo em que imprime sua própria marca. Sai a câmera frenética de Ross e entra em cena um estilo mais clássico, mas nem por isso menos interessante. Lawrence é elegante na sua concepção, optando por uma abordagem mais sóbria. Prova disso é o visual menos extravagante desse filme, que parece abandonar um pouco do colorido visto anteriormente (e que por vezes chegava a distrair a atenção do espectador), o que combina bem com o clima mais sombrio que o diretor propõe.

Assim como em boa parte das trilogias, o episódio do meio, apesar de ter mais espaço para explorar os personagens, sofre pela falta de uma sensação de encerramento. Mesmo que o arco narrativo apresentado tenha terminado de maneira bastante satisfatória, o inevitável gancho para o próximo capítulo faz parecer que o filme não acabou. Isso, porém, não diminui o crédito de Jogos Vorazes: Em Chamas, que de fato é um ótimo longa e aponta para um caminho muito interessante a ser explorado em seguida. É uma pena que os produtores tenham resolvido dividir o episódio final em dois filmes (algo que está virando moda atualmente), mas esperamos que essa decisão monetária não estrague uma franquia que se iniciou como uma agradável surpresa e está se provando como um cinema de conteúdo e de qualidade.

(4/5)
Jogos Vorazes: Em Chamas (Hunger Games: Catching Fire)
Estados Unidos, 2013 – 143 min.
Direção: Francis Lawrence. | Roteiro: Simon Beaufoy e Michael Arndt.
Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Elizabeth Banks, Stanley Tucci.

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