Crítica: Elysium


Assim como Stanley Kubrick (2001 – Uma Odisséia no Espaço), o sul-africano Neill Blomkamp sabe que uma boa ficção científica pode funcionar também como crítica social. Artista talentoso, em Distrito 9 (2009), seu primeiro longa-metragem, Blomkamp já demonstrava um desejo em proporcionar algo mais que um mero entretenimento – não foi à toa que a obra recebeu vários prêmios internacionais, além de concorrer ao Oscar de Melhor Filme. Elysium é a nova tentativa do diretor em criar uma aventura sci-fi tendo como plano de fundo conteúdos em voga atualmente. Enquanto Distrito 9 denunciava o Apartheid e a tensão racial na África do Sul, Elysium fala nas entrelinhas da desigualdade social, discrepância econômica e imigração ilegal.

A história é ambientada no distópico ano de 2154, onde uma Terra completamente devastada após intensa exploração, se transformou numa gigantesca favela. Diante da escassez de água e falta de oxigênio limpo, o governo e a classe alta se transferiram para uma estação espacial gigante chamada Elysium (em referência aos Campos Elísios da mitologia greco-romana). Fora do planeta, eles vivem confortavelmente, longe da poluição e da superpopulação, possuindo até máquinas ultra-modernas capazes de curar qualquer tipo de doença. Já a classe baixa exilada lá “embaixo”, leva uma vida precária e caótica, oprimida por um regime ditatorial que prioriza apenas os ricos e impede os pobres de entrar naquele lugar restrito.

Nesta Terra inóspita vive o protagonista, Max da Costa (Matt Damon), ex-ladrão e atual operário, que após sofrer uma contaminação radioativa descobre que a única cura possível está em Elysium. Para conseguir acesso ao satélite, Max se alia ao “coiote cibernético” Spider (Wagner Moura), líder de um grupo revolucionário de resistência ao governo -, que lhe garante uma viagem clandestina em troca de um “favorzinho” (que eu não vou contar qual é). Ao mesmo tempo, a Secretária de Segurança da estação espacial, a implacável Delacourt (Jodie Foster), planeja um golpe de estado. As duas tramas vão se interligar em determinado momento, com consequências para ambas as partes.

Ficção científica arrojada, com efeitos visuais caprichados e cenários (digitais) fantásticos, o longa tinha potencial para alçar voos mais altos. O que sobrou em Distrito 9 é o que mais sentimos falta em Elysium: ousadia e originalidade. O roteiro, que em determinados trechos chega bem perto do melodrama, é bastante previsível. Os personagens, maniqueístas ao extremo, e os flashbacks desnecessários, também prejudicam a narrativa. E quanto ao “manifesto político”? Críticas as leis anti-imigração, aos crimes ambientais e ao abismo cada vez maior entre pobres e ricos soam superficiais e resvalam na mesmice. Salvam-se as cenas de ação com suas batalhas engendradas e o desempenho dos brasileiros no elenco.

Atração extra para o público nacional, os coadjuvantes Alice Braga (Eu Sou a Lenda, Predadores) e Wagner Moura (Tropa de Elite) tem papeis importantes na história. Alice, que há algum tempo trabalha em produções norte-americanas, aparece pouco, ma está muito bem no papel da médica Frey, interesse romântico do personagem de Damon. Wagner, estreando em Hollywood, prova que tem cacife para virar ator internacional, entregando uma performance intensa e propositadamente exagerada – em entrevista a Folha de S. Paulo, ele chamou este seu desempenho histriônico de “axéacting”. Os dois valem o ingresso, nesta produção pretensiosa que, não atende a expectativa criada, mas funciona ao menos como diversão escapista.

(3/5)
Elysium (Idem)
Estados Unidos, 2013 – 109 min.
Direção e Roteiro: Neill Blomkamp.
Elenco: Matt Damon, Jodie Foster, Sharlto Copley, Wagner Moura, Diego Luna, Alice Braga.

  • Enio

    Concordo em quase tudo que foi dito na critica acima… Elysium traz um ótimo argumento e bons efeitos especiais, mas…
    É obvio demais;
    Roteiro imediatista, cheio de furos e incoerências;
    Em vários aspectos é simplesmente inverossímil, mesmo para 2154;
    E pra finalizar, as atuações são fracas ou mau dirigidas.