Crítica: Cine Holliúdy


Quem já teve o prazer de ler o Dicionário de Baianês de Nivaldo Lariú, tem uma breve noção do que vai encontrar em Cine Holliúdy. Um dos maiores fenômenos cinematográficos do ano, a comédia nacional é a primeira da História falada em “cearensês” onde expressões como “arri égua”, “armaria”, “cara de chibata”, “toma no espinhaço”, entre outras, fazem o maior sentido. Mas não só de gírias extravagantes típicas do Estado “veve” o longa: trata-se de uma história metalinguística que presta homenagem a sétima arte e mostra a determinação do povo nordestino.

A trama se desenrola no pequeno município de Pacatuba (Ceará), durante a década de 1970, para onde o destemido exibidor Francisgleydisson (Edmilson Filho, hilariante) muda-se com sua esposa Maria das Graças (Miriam Freeland) e o filho pequeno, na esperança de manter funcionando seu cinema itinerante, cada vez mais vazio após a chegada em massa da TV. Marketeiro por instinto, Francisgleydisson e sua família usam e abusam da criatividade na intenção de atrair o público para seus mambembes filmes de artes marciais.

A química entre os atores, sobretudo do trio principal, é a alma do longa-metragem. Dotados de um bom humor inabalável e ideias bem malucas, impossível não se sensibilizar (e rir bastante) com esta heroica trupe. O peculiar público pacatubense que frequenta o cinema de Francisgleydisson também arranca boas gargalhadas. Isto porque alguns desses personagens são interpretados por comediantes cearenses bem conhecidos da TV, como o Zé Modesto, vivendo um bêbado, e o cantor Falcão, no papel de um cego cheio de tiradas oportunas.

Baseado no curta Cine Holiúdy – o Astista Contra o Caba do Mal (2004), vencedor de mais de 40 prêmios, o filme de Halder Gomes mostra o Ceará com um olhar de dentro e, talvez por isso, venha fazendo tanto sucesso. Realizado com apenas R$ 1 milhão, custo baixo para uma produção nacional, a obra obviamente apresenta alguns tropeços. A montagem no início é um tanto confusa, prejudicando o entendimento da trama, e algumas sequências, apesar de engraçadas, parecem esquetes de humorísticos televisivos sem nenhuma função à história principal.

Entretanto, nenhuma destas falhas é capaz de apagar o brilho do filme, cujo linguajar regional é um atrativo à parte – o diretor chega ao ponto de inserir legendas em algumas ocasiões, para que os pouco conhecedores do idioma “cearensês” possam aproveitar melhor alguns trechos da fita. Um marco na embrionária indústria cinematográfica do Ceará, Cine Holliúdy é uma obra com personalidade própria, uma daquelas comédias que você sai da sessão com vontade de ver outra vez.

(3.5/5)
Cine Holliúdy
Brasil, 2013 – 91 min.
Direção e Roteiro: Halder Gomes.
Elenco: Edmilson Filho, Miriam Feeland, Roberto Bomtempo, Jesuíta Barbosa, Falcão.