Crítica: Círculo de Fogo


Apesar de uma carreira relativamente curta, o cineasta mexicano Guillermo del Toro (O Labirinto do Fauno) já provou ter talento suficiente para gerar, senão expectativa, pelo menos curiosidade sobre qualquer coisa que ele se envolva (na direção pelo menos, seus créditos como produtor são meio duvidosos). Sendo assim, quando é anunciado que del Toro comandará um longa sobre robôs gigantes lutando contra monstros colossais, sabe-se (ou pelo menos se espera) que será visto na tela algo feito por alguém com conhecimento histórico / cinematográfico suficiente para tratar um tema absurdo como esse com a seriedade que ele merece.

E é isso o que acontece. Círculo de Fogo não é apenas um blockbuster. É uma verdadeira homenagem ao subgênero de filmes de monstros, tendo influência direta do cinema oriental, tanto em suas qualidades quanto em seus defeitos.

Escrito por Travis Beacham (Fúria de Titãs), com auxílio do próprio Del Toro, o roteiro acompanha a resistência humana depois que uma fenda no Oceano Pacífico abriu caminho para que criaturas monstruosas (conhecidas como Kaijus) invadissem o planeta, destruindo tudo o que veem pela frente. Como o ataque com armas convencionais acaba causando mais destruição do que o próprio inimigo, a humanidade se uniu para criar os Jaegers, robôs gigantes controlados por dois pilotos humanos que enfrentam os monstros de igual para igual. Quando esse programa de defesa começa a dar prejuízo, os governantes mundiais decidem aposentar os Jaegers para focarem seus orçamentos em outras formas de defesa. Os pilotos e robôs restantes são reunidos no Japão, onde um grandioso ataque deve acontecer em breve.

Hábil ao entender a dinâmica da sua produção, del Toro respeita a especificidade física daquilo que ele propõe ao espectador. Ao contrário dos Transformers, o movimento dos robôs gigantes (assim como dos monstros) é lento, o que condiz com sua grande proporção. Mais do isso, o diretor abusa de planos em contra-plongée (com a câmera de baixo, apontando para cima) para não apenas destacar a grandiosidade daquelas criaturas, mas também mostrar a insignificância e impotência do homem em relação àquilo. E mais, o cineasta ainda faz questão de exibir a destruição causada pelos embates, mesmo que opte por esconder as (possivelmente) diversas mortes causadas em decorrência disso.

Mas apesar de todas as qualidades, Círculo de Fogo peca por não saber desenvolver os personagens e seus dramas pessoais. E ainda que também seja uma influência nipônica – ninguém se importava muito com os humanos nos filmes do Godzilla – isso se torna contraditório uma vez que tal desenvolvimento é proposto durante a narrativa. O trauma do protagonista, a relação paternal entre o capitão e a jovem japonesa, ou o piloto arrogante que eventualmente vai aprender sua lição; está tudo ali, mas também não faria falta se não estivesse.

Além disso, o texto de Beacham apresenta algumas contradições, como o robô que funciona depois de um pulso eletromagnético simplesmente porque sua alimentação é analógica (ignorando o fato de que ele está dentro de uma plataforma fechada, digital, e, conforme é informado, totalmente inoperante); ou mesmo quando aponta que a pior parte da neuroconexão entre os dois pilotos (necessária para que ambos comandem o robô simultaneamente) é o silêncio, uma vez que um consegue ler o pensamento do outro, tornando o ato de falar algo desnecessário – o que não impede que, no meio das batalhas, um piloto fale para o outro o que este deve fazer, ou pergunte se está tudo bem.

Apesar desses detalhes (ou defeitos, caso queira chama-los assim), Círculo de Fogo é divertido, muito bem realizado, visualmente impecável, e entretém sem ofender a inteligência do público. Precisa mais alguma coisa?

(3.5/5)
Círculo de Fogo (Pacific Rim)
Estados Unidos, 2013 – 129 min.
Direção: Guillermo Del Toro. | Roteiro: Travis Beacham e Guillermo Del Toro.
Elenco: Charlie Hunnam, Rinko Kikuchi, Idris Elba, Charlie Day, Ron Perlman.