Crítica: Amor Bandido


Quem já leu As Aventuras de Huckleberry Finn e/ou As Aventuras de Tom Sawyer imediatamente vai lembrar de passagens do(s) livro(s) ao assistir Amor Bandido. Além de referências (e reverências) ao escritor Mark Twain, ecos de Conta Comigo de Stephen King também poderão ser identificados neste novo e magnífico trabalho do diretor Jeff Nichols (O Abrigo).

Escrito pelo próprio cineasta, a história se desenrola na região ribeirinha do Mississippi, sul dos Estados Unidos, onde os garotos Ellis (Tye Sheridan) e Neckbone (Jacob Lofland) passam o tempo desbravando o rio local e seus afluentes. Numa dessas aventuras rotineiras, vão parar numa pequena ilha deserta, onde encontram um barco encalhado na copa de uma árvore. Vivendo precariamente dentro da embarcação está Mud (Matthew McConaughey), um homem misterioso que fascina os moleques e cria um inusitado laço de amizade com eles.

Aos poucos, eles ficam sabendo que o sujeito está sendo procurado pela polícia e caçadores de recompensa. Mesmo assim, decidem ajudá-lo, por motivos bem diferentes: enquanto Neckbone está interessado apenas num revolver como pagamento, Ellis, um romântico por natureza que ainda está digerindo a separação recente dos pais, quer ver Mud retornar para os braços do seu grande amor, a problemática Junniper (Reese Witherspoon). Os jovens vão descobrir que a vida e o amor guardam surpresas, às vezes, desagradáveis.

Sensível e profundo, Amor Bandido é uma fábula moderna sobre amadurecimento através das descobertas (e desilusões) do amor. Se o longa funciona, muito do impacto se deve ao elenco afiado e entrosadíssimo, conduzido com maestria por Nichols, um verdadeiro craque na construção de diálogos e personagens ricos em sentimentos.

Matthew McConaughey, em sua “McConascence” – palavra inventada pelos americanos para a nova e excelente fase artística que vive o ator – entrega mais uma performance inspirada: seu Mud, um contador de “causos” supersticioso, é carismático e hipnotizante, ainda que marcado pelo sofrimento. Os garotos que contracenam com ele também dão um show de interpretação. A química entre Sheridan (A Árvore da Vida) e Lofland (estreando no cinema) e dos dois com McConaughey é algo impressionante, quase palpável.

Os coadjuvantes também fazem um bom trabalho. Sarah Paulson (da série American Horror History) e Ray McKinnon (Um Sonho Possível) como os rígidos pais de Ellis, o veterano Sam Sheppard (O Homem da Máfia), um sujeito caladão que tem um passado com Mud e Michael Shannon (O Homem de Aço), no papel do tio de Neckbone; todos eles contribuem com a dramaticidade da história.

Amor Bandido peca apenas em seu último ato, durante o clímax final. Repleto de tiros e perseguições, a sequência interrompe bruscamente a narrativa calma e reflexiva para investir numa sequência de ação barulhenta tipicamente hollywoodiana. Ao que tudo indica, uma intervenção do estúdio no trabalho do diretor. O pequeno deslize, no entanto, tira pouco o fulgor desta extasiante obra, cheia de simbolismos.

(4/5)
Amor Bandido (Mud)
Estados Unidos, 2013 – 130 min.
Direção e Roteiro: Jeff Nichols.
Elenco: Matthew McConaughey, Tye Sheridan, Jacob Lofland, Reese Witherspoon.