Crítica: O Homem de Aço


Ao contrário da Marvel, que pavimentou um caminho de sucesso nos cinemas com as adaptações do Homem-Aranha (na Sony), dos X-Men (na Fox) e do Homem de Ferro, Vingadores e Cia. (no próprio Marvel Studios), a DC Comics ainda engatinha para levar seus personagens para à telona com o mesmo sucesso da concorrente. Exceto a Trilogia Batman (2005-2012), comandada por Christopher Nolan, as investidas da Warner (proprietária da DC) neste filão só resultaram em fracassos, vide Superman – O Retorno (2006) e Lanterna Verde (2011).

O Homem de Aço era um passo importante para a DC/Warner, não só por se tratar do reboot do personagem mais icônico dos quadrinhos, o Superman, mas também por ter a responsabilidade de dar o pontapé inicial em algo similar ao que a Marvel criou nos cinemas; um universo coeso que pudesse gerar novos filmes da Editora. Encontrar um substituto que fizesse o público “esquecer” Christopher Reeve também era outro desafio – apesar de não ter sido o primeiro intérprete, o ator se tornou a “imagem oficial” do azulão nos cinemas, por viver um Clark/Kar-El/Super-Homem de forma tão singular e carismática. Controvérsias a parte, Man of Steel, no mínimo, supera as expectativas.

A trama se inicia em Krypton, planeta natal do Super-Homem, que está à beira da destruição total depois que a exploração descontrolada dos recursos naturais levou à desestabilização de seu núcleo. Vendo que seu povo não tem mais salvação, Jor-El (Russell Crowe) envia seu filho, Kal-El, para a Terra, local onde conseguirá sobreviver. Adotado por Martha (Diane Lane) e Jonathan Kent (Kevin Costner), ele recebe o nome de Clark e, a medida que o tempo passa, sob influência da atmosfera e do Sol do nosso planeta, vai desenvolvendo habilidades físicas muito superiores aos humanos.

Já adulto (interpretado por Henry Cavill), ele inicia uma busca por suas origens e acaba descobrindo mais do que esperava, atraindo à atenção dos militares norte-americanos e da repórter Lois Lane (Amy Adams) ao encontrar uma nave Kryptoniana semelhante a que lhe trouxe à Terra. Porém, a pior ameaça ainda está por vir: o temido General Zod (Michael Shannon), um antigo inimigo do seu pai, libertou-se da Zona Fantasma, prisão espacial onde estava confinado e chegou ao planeta em busca de vingança.

Esta nova versão do filme além de não fazer qualquer menção explícita do vilão mais recorrente de todas as adaptações, Lex Luthor – exceto para os olhos mais atentos que perceberam o prédio visto ao fundo das janelas do Planeta Diário com um enorme “L” e um caminhão da LexCorp que é estraçalhado por Clark -, traz um Super-Homem mais humano aos nossos olhos. Apesar do tom fantasioso e aventuresco permeando a jornada do herói, muitos valores são discutidos ao longo da história: compaixão, sacrifício, perdão, respeito, autocontrole, amor. Apesar de ser um extraterrestre poderoso, ele também é alguém que busca o seu lugar, a sua função na vida.

O novo Superman é certamente muito bem-vindo, mesmo que seja diferente em diversos aspectos do “tradicional” – o que irritou os fãs xiitas dos quadrinhos. O bad guy General Zod também surpreende por não ser um personagem maniqueísta como era de se esperar. É um homem contra a apatia generalizada dos grandes poderes de seu planeta e que busca meios, ainda que escusos e extremistas, com base em algo legítimo. O fato de usarem Zod já no primeiro filme, proporcionando um embate de igual para igual, nos faz pensar o que está por vir. Apocalypse, talvez?

Ainda que seja um ótimo entretenimento, O Homem de Aço também tem lá suas falhas. A mania recorrente de entregar toda informação extremamente mastigada para o público e o fato de não explicar como os kriptonianos falavam a língua inglesa antes mesmo de conhecer o planeta Terra, são algumas delas. Estes tropeços, no entanto, são pequenos detalhes que não maculam a obra dirigida por Zack Snyder, uma grande diversão para qualquer fã, seja dos quadrinhos originais ou de adaptações mais novas. Para o alto e avante!

(4/5)
Homem de Aço (Man of Steel)
Estados Unidos, 2013 – 143 min.
Direção: Zack Snyder. | Roteiro: David S. Goyer.
Elenco: Henry Cavill, Amy Adams, Michael Shannon, Kevin Costner, Russell Crowe.

  • Eduardo Souza

    Pra mim o problema do filme foi o descompasso entre o roteiro/produção (que miraram na excelente Trilogia "Cavaleiro das Trevas") e a direção (que mirou no excelente "Os Vingadores") e não acertou nem em um, nem em outro. A matéria prima era excelente, mas o filme não se decidiu entre a ação ou algo mais dramático.

  • Enio

    MAIS UM “JESUS CRISTO” AMERICANO

    Super-man foi e continua sendo uma metáfora da religião maniqueísta mais popular do ocidente fundado nos medos do ser humano e sua crença em um “salvador”. Só que neste reboot o tom cristão é bem explicito.
    Pode-se notar isso tanto no compromisso ético/moral do personagem quanto nas cenas melodramáticas – Uma delas, inclusive, em que o deus semelhante ao ser humano e de capa vermelha, faz um gesto de crucificação antes da fala: “Você salvará a todos”.
    Quanto ao entretenimento: achei um plágio de Matrix–Revolutions, especialmente quanto às cenas da luta final entre Super-homem e seu antagonista (impossível não se lembrar de Neo e Sr. Smith). Outra forte referência a Matrix diz respeito ao modelo de civilização dos alienígenas na qual a espécie é cultivada e programada para que cada um desempenhe seu propósito – outro embate ético/moral.

    Em suma: É cada vez mais evidente que a sétima arte (pelo menos a americana) carece de novos argumentos para diminuir essa onda de “Reciclagem”.

    E.G.O