Crítica: Segredos de Sangue


Diretores importados para os EUA geralmente têm suas “mãos amarradas” por conta das exigências dos grandes estúdios, e não conseguem produzir na América filmes tão interessantes quanto os realizados em seu país de origem. Felizmente, não é o que acontece com o sul-coreano Chan-wook Park, diretor de estilo cinematográfico bem peculiar, acostumado a trabalhar com temas pesados e engenhosos – Park ficou conhecido no cenário internacional com Old Boy, um dos longas de vingança mais viscerais e perturbadores de todos os tempos.

Logo nos primeiros minutos, nos créditos iniciais de Segredos de Sangue, o espectador percebe uma atmosfera diferente dos convencionais filmes made in USA. Um clima sombrio (e de estranha beleza) permeia a história da jovem India (Mia Wasikowska), que após a morte súbita do pai (Dermot Mulroney) num acidente de carro, passa a conviver com seu misterioso tio Charlie (Matthew Goode), cuja existência ela desconhecia, que muda-se para a mansão onde India vive com sua instável e distante mãe (Nicole Kidman).

O sujeito, um Norman Bates charmoso e enigmático, tem outros motivos para morar com a família, do que apenas consolar a pobre viúva de seu irmão e a filha dele. Sedutor, ele começa a se aproximar da sobrinha carente, ao mesmo tempo em que também mira na cunhada, uma mulher fria que tem medo da velhice. A garota se sente estranhamente atraída por ele e, a medida que segredos do passado vem à tona, muitas reviravoltas acontecem.

Graças ao elenco talentoso – sobretudo Goode e Wasikowska que dominam a película – olhares e gestuais dizem muito mais do que aparentam. Um teor sexual violento e implícito (quase palpável!) permeia todo o filme. Park que adora flertar com o “proibido”, brinca com o imaginário antes de partir para a sanguinolência. Aranhas que sobem pelas coxas da garota e cintos que remetem a relações sádicas são bons exemplos. Numa cena, a jovem India se masturba depois de ver alguém ser morto; noutra ela se excita ao dividir o piano com o tio. Vale tudo no universo erótico-simbólico-estilizado do diretor sul coreano.

Chan-wook Park é um espécie de vampiro, que encontra no precioso líquido vermelho o elemento catalisador para contar suas histórias fascinantes e ao mesmo tempo aterradoras sobre sedução, jogos de poder e violência. Em seu debut hollywoodiano, acertou mais uma vez: Segredos de Sangue é poesia e ousadia na mesma medida, uma obra visualmente arrebatadora, mórbida e hipnotizante, não indicado para quem gosta apenas de acompanhar histórias felizes no cinema.

(4/5)
Segredos de Sangue (Stoker)
Estados Unidos / Reino Unido, 2013 – 99 min.
Direção: Chan-wook Park. | Roteiro: Wentworth Miller.
Elenco: Matthew Goode, Nicole Kidman, Mia Wasikowska, Dermot Mulroney, Lucas Till.