Crítica: O Grande Gatsby


A união entre o estilo visual do realizador Baz Luhrmann, a adaptação de uma obra clássica da literatura e o carisma do ator Leonardo DiCaprio, já rendeu um excelente resultado com Romeu + Julieta (1996). Sendo assim, a nova reunião desses elementos, ao trazer para as telas o clássico O Grande Gatsby, escrito por F. Scott Fitzgerald, era muito aguardada tanto pelos fãs e entusiastas do diretor, do escritor e/ou do ator. E não deixa de ser decepcionante que uma fórmula que funcionou tão bem no passado, acabe não surtindo o mesmo efeito novamente.

Escrito pelo próprio Luhrmann, junto com seu parceiro habitual, Craig Pearce (Moulin Rouge), o roteiro acompanha o jovem escritor Nick Carraway (Tobey Maguire), que se muda para uma singela casa de campo localizada em meio às mansões de Long Island da década de 1920. A casa ao lado, onde vive o misterioso Jay Gatsby (DiCaprio), é palco de exuberantes festas, que contam com a presença da cidade inteira. Quando Carraway recebe o convite para uma dessas festas, ele adentra o mundo quase fantasioso de Gatsby, e se vê envolvido em uma trama que, de alguma maneira, tem relação com sua prima Daisy (Carey Mulligan), casada com o milionário (e adúltero) Tom Buchanan (Joel Edgerton).

Hábil ao criar elementos visuais interessantes – como a primeira cena de Daisy, envolta nas cortinas, dando-a um ar angelical –, o diretor simboliza através de belas imagens a visão maravilhada que Nick tem daquele mundo recém-descoberto (a trilha sonora pop também ajuda nesse processo). E isso funciona muito bem, até certo ponto. Mas a partir do momento que os segredos envolvendo Gatsby começam a ser revelados, a narrativa perde o ritmo e se torna cansativa, em parte devido ao uso desnecessário do 3D. E a partir desse momento, nem mesmo a estética de Luhrmann consegue esconder os seus equívocos como roteirista.

O texto da dupla mostra-se bastante limitado no desenvolvimento dos personagens, inclusive não apresentando propriamente alguns. A personagem Jordan Baker (Elizabeth Debicki), por exemplo, surge como uma incógnita, não ficando claro se ela mora na casa de Dayse e qual o motivo para isso – algo que no livro é mais bem detalhado, o que dá mais importância à mesma. Já Carraway, o verdadeiro protagonista da história, torna-se aqui um mero observador, totalmente impotente em relação a tudo que acontece à sua volta. E o fato do roteiro inserir uma introdução (e conclusão) sua, envolvendo um psicólogo, surge como uma tentativa frustrada de ilustrar a importância do mesmo – como uma promessa que o restante do filme não cumpre.

Já Leonardo DiCaprio se contrapõe aos demais ao compor o papel título de maneira brilhante, como alguém que esconde inúmeros segredos embaixo de uma aparente serenidade. Mas a maneira como o texto reverte sua personalidade soa um tanto exagerada. Ainda que fosse de se esperar que a medida que certas verdades fossem reveladas o personagem perderia um pouco da sua “pose”, as mudanças que o longa propõe são tão bruscas que o Gatsby do final do filme em nada se assemelha ao do início. E mesmo que essa talvez seja a proposta dos realizadores, essas duas personalidades tão distintas me impediram de sentir qualquer afeição pelo personagem.

Mas essa não é a única mudança narrativa que não funciona. Outro exemplo é o aparente mistério envolvendo a identidade de Gatsby – ou mesmo a discussão se ele de fato existe. Essa temática é mencionada em certo momento e parece ser esquecida em seguida, quando vemos o personagem caminhando por uma festa sendo cumprimentado por todo mundo. E a escolha do roteiro de revelar aos poucos os mistérios em torno do protagonista não se mostra condizente com o clímax, onde se prepara o terreno para uma grande revelação que não acontece (já que tudo já havia sido explicado antes).

Respeitando mais uma vez o material em que se baseia – inclusive evitando atualizar a trama, como fez em Romeu + Julieta – Baz Luhrmann parece ter esquecido que a base de um filme desses ainda é a história. Sem um bom roteiro, o que temos na tela é um espetáculo colorido, exuberante e vazio. O Grande Gastby Pode servir como entretenimento, mas com certeza não faz jus à obra de Fitzgerald.

(2/5)
O Grande Gatsby (The Greaty Gasby)
Estados Unidos / Australia, 2013 – 142 min.
Direção: Baz Luhrmann. | Roteiro: Craig Pearce e Baz Luhrmann.
Elenco: Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire, Carey Mulligan, Joel Edgerton, Isla Fisher.