Crítica: Uma História de Amor e Fúria


Uma História de Amor e Fúria é um dos projetos nacionais mais aguardados de 2013. Ovacionado no Festival do Rio em outubro do ano passado, trata-se de uma animação caprichadíssima, estreia na direção do visionário roteirista Luiz Bolognesi (mais conhecido por seus trabalhos em parceria com a esposa e diretora Laís Bodanzky, como Bicho de Sete Cabeças e As Melhores Coisas do Mundo), que durante dez anos empenhou-se para levar sua refinada produção às telas.

Em tempos onde até a Walt Disney já abandonou a animação clássica e abraçou de vez a computação gráfica, a obra de Bolognesi enche os olhos justamente por ter sido realizado com as técnicas “tradicionais”: personagens desenhados e animados no papel. O traço lembra um pouco O Principe do Egito (1998), o primeiro trabalho do estúdio norte-americano Dreamworks, mas as semelhanças com qualquer outra coisa da “gringa” param por aí. O enredo do filme é uma mistura de História do Brasil com pitadas de ficção científica.

A animação se desenvolve em quatro momentos temporais, contados de forma episódica: na tentativa de colonização francesa em 1566; a revolta da Balaiada, ocorrida no Maranhão em 1838; um recorte da Ditadura Militar que vai de 1968 a 1980 e, por último, um Rio de Janeiro distópico em 2096, onde a água potável tornou-se a commodity mais preciosa do futuro, e é controlada por megacorporações e milícias violentas. Cada uma destas fases marcantes do cenário brasileiro é testemunhada por um guerreiro Tupinambá (voz de Selton Mello), que tornou-se imortal após combater o malevólo Anhangá, na época do descobrimento pelos portugueses.

Apaixonado há 600 anos por Janaína (Camila Pitanga), no intermédio entre cada um destes tempos, o protagonista transforma-se num pássaro em busca da reencarnação de seu grande amor, e a cada nova aventura, assume uma etnia diferente (começa como um índio, depois vira um negro e em seguida um branco). Apesar desta premissa onírica, o longa-metragem não é uma aula de História para crianças. Direcionada para o público adulto – há cenas de nudez, sexo e sangue – , a animação tem tom sério e aborda temas como luta de classes, guerras e sexualidade.

Apesar do tom maniqueísta ao revisitar nosso passado – os opressores (sempre o Estado representado de alguma forma) são malvados até a alma enquanto os oprimidos (o povo) puros de coração -, Uma História de Amor e Fúria é tecnicamente primoroso e esteticamente atraente. Os desenhos, a edição de som e a trilha sonora trabalham em perfeita consonância, transformando o filme numa aventura de primeira. Produção ambiciosa que, esperamos, abra portas para outros projetos similares em terras tupiniquins.

(4/5)
Uma História de Amor e Fúria
Brasil, 2013 – 75 min.
Direção e Roteiro: Luiz Bolognesi.
Vozes de Selton Mello, Camila Pitanga, Rodrigo Santoro, Paulo Goulart, Bemvindo Sequeira.

  • Eu fui convidado para ver a pré-estreia deste filme no começo do ano, mas infelizmente não pude ir. Estou muito ansioso para assisti-lo. Adorei sua critica. Parabéns!