Crítica: Mama


É o sonho de todo jovem cineasta (ou pelo menos da maioria deles) ser apadrinhado por um diretor já estabelecido e cuja filmografia é motivo de admiração. Foi esse o caso de Eli Roth e Quentin Tarantino (parceria que viabilizou os dois primeiros O Albergue), Fede Alvarez e Sam Raimi (com o vindouro remake de A Morte do Demônio) e Andrés Muschietti e Guillermo Del Toro. Seguindo o caminho de muitos realizadores iniciantes, Muschietti fez um ótimo curta-metragem e lançou-o na internet em 2010, onde teve extensa repercussão.

Intitulado ”Mamá”, o pequeno filme mostrava o medo de duas irmãs em relação ao fantasma materno que as assombrava. O curta (que pode ser visto aqui) chamou a atenção do diretor mexicano, que rapidamente procurou se reunir com Muschietti. E o resultado dessa reunião se vê agora nas telas dos cinemas, com os seguintes dizeres acima do título: “apresentado por Guillermo Del Toro”.

Estendendo o fiapo de história original, em Mama as irmãs Victoria (Megan Charpentier) e Lilly (Isabelle Nélisse) são raptadas pelo pai e levadas até uma cabana abandonada no meio da floresta, onde um espírito passa tomar conta delas. Quando são encontradas e reintroduzidas na sociedade, cinco anos depois, o tio delas (Nikolaj Coster-Waldau) fica com sua guarda, e passa a criá-las com a ajuda da namorada, a ex-roqueira Annabel (Jessica Chastain). O problema é que a entidade da cabana segue as meninas até a nova casa, e parece demonstrar ciúmes dessa recém-formada família – especialmente da mulher que agora assumiu o papel de mãe.

Ainda que a temática seja um tanto absurda, o roteiro (escrito por Andrés e sua irmã Barbara, com ajuda de Neil Cross) consegue estabelecer coerência às ações através da sua atenção aos pequenos detalhes. Um exemplo disso são os óculos de Victoria, que se quebram antes da primeira aparição do espectro, como justificativa para manter a figura nas sombras. Esse mesmo elemento, os óculos, é usado em outro instante para restabelecer o contato da menina com a família (ao colocar o novo par de lentes, ela reconhece no tio, irmão gêmeo de seu pai, a figura paterna que a abandonou antes). Da mesma maneira, sempre que menina vai brincar com a mama, ela tira os óculos em sinal de respeito/obediência.

Demonstrando precisão no domínio da linguagem cinematográfica, Muschietti cria sequências interessantes tanto esteticamente – como o plano que vemos, ao mesmo tempo, o corredor e o quarto, onde duas ações ocorrem em paralelo – quanto na questão temática – ao trabalhar mais com a sugestão do que com a informação explícita (“Tem uma mulher ali fora. Ela não está encostando no chão”). Porém o diretor não escapa de cair em diversos clichês do gênero, que vão desde aparições surpresas (e desnecessárias) do fantasma atrás da protagonista, até a já batida sequência em que um quarto escuro é iluminado através dos flashes de uma câmera fotográfica.

Mas o maior defeito do filme encontra-se justamente na sua vilã. Concebida para habitar as sombras na maior parte da projeção, era certo que uma vez que seu rosto e sua forma completa fossem revelados, o suspense criado até então perderia força. Entretanto, o visual bizarro da assombração, feito através de uma maquiagem bastante problemática, acaba comprometendo o resultado final, não funcionando nem nas cenas que deveriam ser assustadoras, e muito menos naquelas de cunho mais dramático.

Apesar dos defeitos e de algumas incongruências narrativas (em certo momento alguém fala que voltará pra casa no dia seguinte, e vários dias se passam sem sequer menção do seu retorno), Mama merece destaque pela coragem com que aborda alguns assuntos (principalmente no que diz respeito a o destino de um personagem) e por revelar um cineasta bastante promissor. Agora é esperar que chegue A Morte do Demônio para ver como a parceria Alvarez/Raimi vai se sair.

(3/5)
Mama (Idem)
Espanha / Canadá, 2013 – 100 min.
Direção: Andrés Muschietti. Roteiro: Neil Cross, Barbara Muschietti e Andrés Muschietti.
Elenco: Jessica Chastain, Nikolaj Coster-Waldau, Megan Charpentier, Isabelle Nélisse, Daniel Kash.

  • Fábio

    Cara tipo assim, por ser um diretor estreante eu achei o filme fantastico e sem querer exagerar demais nunca vi até hoje personagem tão macabro quanto a mama, achei a maquiagem e a estetica dela simplesmente fantastica.

  • Francielle

    na verdade, achei que para um diretor estreante ele se saio mt bem, afinal de contas ate diretores super experientes cometem gafes que muitas vezes destroem um filme, mais voltado ao filme, eu gostei mt do final, querendo ou não fugiu dos padroes normais, pois a menina mais nova, escolhei ficar com a mama, que foi quem cuidou dela desde pequena, afinal de contas quando ela foi deixada na cabana era apenas um bebe de 1 ano, que ao passar do tempo se esqueceria de sua mãe biologica, e como a unica mãe que ela ''conheceu'' foi a mama nada mais justo do que ficar com ela, pois qualquer filho sem duvida alguma ficaria com a mãe, ja a menina mais velha tbm entendo os motivos dela, pois ela sabia quem era a mãe dela seu pai seu tio, e a mama foi apenas alguem que cuidou dela, por algum tempo, enfim gostei do filme especialmente pelo final ser diferente, pois sempre me decepciono nos final