Crítica: O Lado Bom da Vida


O diretor e roteirista David O. Russell (O Vencedor) é uma espécie de alquimista cinematográfico. Sem arroubos de criatividade nem propor inovações à arte, ele consegue transformar o trivial em um passatempo extremamente prazeroso. Para tanto, tem o cuidado de entregar o seu precioso texto a atores gabaritados, deixando-os agir à vontade, sem interferências. O resultado são performances bem naturais, marcantes e cativantes, dignas de reconhecimento. Com O Lado Bom da Vida, Russell cunhou sua pedra filosofal: o longa recebeu oito indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme e todas as quatro categorias de atuação (Melhor Ator, Atriz, Ator Coadjuvante e Atriz Coadjuvante), feito que não ocorria há mais de trinta anos.

O título original, “Silver Linings Playbook” é um dito popular da língua inglesa, uma metáfora do otimismo, a ideia de que mesmo uma situação ruim pode trazer algo positivo. Esta é a cartilha que segue Pat Solano (Bradley Cooper, surpreendente), depois de ser liberado do manicômio judiciário onde esteve preso por oito meses, após agredir furiosamente o amante de sua esposa. Diagnosticado com transtorno bipolar, ele volta a morar com seus pais na tentativa de reconstruir a vida e alimenta o sonho obsessivo de reconquistar a esposa.

Uma ordem judicial o impede de se aproximar da ex-mulher, mas Pat apela para que amigos em comum estabeleçam uma comunicação entre o casal. Em um jantar familiar com segundas intenções, ele conhece Tiffany (Jennifer Lawrence, fantástica), jovem problemática que, assim como ele, vive afundada em remédios, desde a morte inesperada do marido. Entre uma discussão e outra, uma relação inusitada entre os dois se estabelece quando ambos enxergam a possibilidade de superarem seus problemas ajudando um ao outro.

A medida que o filme avança, percebemos que não é só Pat que sofre de distúrbios mentais. Todos os demais personagens ao seu redor também carregam algum tipo de “loucura”: sua resignada mãe (Jacki Weaver) concorda com todas as bizarrices que seu pai (Rober DeNiro), um ludopata cheio de manias propõe; seu amigo Ronnie (John Ortiz), está à beira de uma crise de nervos, vítima do consumismo desenfreado da esposa Veronica (Julia Stiles); e Danny (o sumido Chris Tucker), um ex-colega do sanatório, é um mentiroso compulsivo que vive fugindo da clínica psiquiátrica.

A narrativa verborrágica e a edição veloz procuram inserir o público na realidade distorcida em que vive o protagonista. Russell casualmente filma com a câmera na mão para que a plateia compreenda toda a ansiedade por qual passa seu personagem principal. Hábil, ainda consegue inserir um humor fino em ocasiões surpreendentes pontuadas por diálogos afiados, sem nunca parecer exagerado. Se a fórmula funciona, é porque há cumplicidade dos atores. A química entre Cooper e Lawrence “dá liga”, cativa, levando a plateia a torcer por eles até o final, mesmo com a previsibilidade batendo à porta no último ato. Já DeNiro é um show à parte, entregando uma performance divertidíssima como não se via há anos.

O Lado Bom da Vida é um conto moderno sobre a busca da felicidade que não julga a “loucura”, apenas a retrata, tentando atenuar a equivocada leitura que fazemos dela. Todos nós temos manias, opiniões surreais, idiossincrasias. Além disso, ainda passa uma bela mensagem de superação, que é preciso saber lidar com as frustrações, não se abater e seguir em frente, pois, nem sempre o universo conspira a favor. Como diria, Marcel Proust, “para tornar a realidade suportável, às vezes, todos nós cultivamos pequenas loucuras”.

(4/5)
O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook)
Estados Unidos, 2012 – 122 min.
Direção e Roteiro: David O. Russell.
Elenco: Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Jacki Weaver, Chris Tucker.

  • Olá Getro, linkei sua resenha no meu blog, gostei dela e do trailler que vc disponibilizou. Qualquer problema me avise, eu retiro, ok? obrigada!