Crítica: Indomável Sonhadora


Os filmes hollywoodianos sobre a pobreza, salvo raríssimas exceções, são realizados com parcimônia, onde os miseráveis estão sempre felizes e orgulhosos de sua condição ou são retratados como vítimas, portanto, dignos de admiração ou piedade, levando em conta o movimento calvinista que afirma que “ignorância é felicidade”. Distante deste paradigma cinematográfico, Indomável Sonhadora esquiva-se do conformismo estabelecido para esta classe social apelando para o realismo fantástico, ao contar uma instigante história de amadurecimento e superação.

A trama se passa numa área pantanosa da Louisiana próxima a uma barragem, batizada pelos moradores do lugar de “A Banheira”, região bastante afetada pela passagem do furacão Katrina em 2005 – o cenário é inspirado na Ilha de Jean Charles, parte do estado norte-americano que integra o Golfo do México e está sendo, aos poucos, inundado pelo mar. Nesta “Veneza dos pobres” consumida por lixo e alagamentos, vive Hushpuppy (Quvenzhané Wallis), garota de apenas 6 anos que cresce se esforçando para sobreviver, ao lado do pai e dos poucos vizinhos que insistem em continuar morando no precário local.

Criada quase como um animal – a criança tem nome de filhote de cachorro – por Wink, seu pai alcoólatra (Dwight Henry), Hushpuppy é submetida a castigos físicos e psicológicos para aprender a ser forte e independente desde cedo. Sem compreender direito a “didática” do pai, ela absorve os ensinamentos através de sonhos e devaneios, assombrados por imensos bisões pré-históricos. Metáfora semelhante já foi utilizada no subestimado Onde Vivem os Monstros (2009). Assim como o protagonista mirim do filme de Spike Jonze, o obscuro mundo fantasioso é a maneira que a garota encontrou para compreender a dura realidade da vida.

Baseado na peça teatral “Juicy and Delicious” de Lucy Alibar (que escreveu o roteiro ao lado do diretor Benh Zeitlin), Indomável Sonhadora é um filme reflexivo que consegue fundir drama e fantasia, sem ser piegas. A luta do ser humano pela sobrevivência e as relações de pai e filho(a) ganham contornos mais fascinantes sob a visão desta dupla. Filmado quase sem refletores e com a câmera na mão, sempre em movimento, a obra é fruto do trabalho coletivo do Court 13, grupo de cineastas independentes criado em 2004 na cidade de Nova Orleans para movimentar a produção de cinema local. A maioria dos atores também é nativa da Louisiana, verdadeiros moradores da Ilha de Jean Charles, lugar utilizado como locação, o que acrescenta grande realismo ao tom documental da película.

Vencedor do Grande Prêmio do Júri de Sundance e da Caméra d’Or de Cannes (que premia os melhores estreantes do ano), o longa concorre ao Oscar em quatro categorias: Melhor Filme, Diretor (Zeitlin), Roteiro Adaptado e, pasmem, Melhor Atriz. Quvenzhané Wallis, aos 9 anos de idade, é a mais jovem da história a receber uma indicação ao prêmio. Embora a nomeação soe como uma jogada de marketing da Academia de Hollywood, impossível não se apaixonar pela pequenina. Sua naturalidade é impressionante e apesar do desempenho igualmente notável do ator Dwight Henry, seu pai nas telas, ela é a força motriz do longa. Motivo pelo qual Beasts of the Southern Wild (Feras do Sul Selvagem) – esqueça o idílico título nacional – merece e precisa ser visto.

(4.5/5)
Indomável Sonhadora (Beasts of Southern Wild)
Estados Unidos, 2012 – 93 min.
Direção: Benh Zeitlin. Roteiro: Lucy Alibar e Benh Zeitlin.
Elenco: Quvenzhané Wallis, Dwight Henry, Levy Easterly, Lowell Landes, Gina Montana.

  • Quvenzhané Wallis foi a atriz que fez o diferencial nesse drama de ótima qualidade. Tomara que tenha uma longa carreira no cinema. Um filme sensacional!

  • Luiz

    "Hushpuppy é submetida a castigos físicos e psicológicos"?
    "Sem compreender direito a “didática” do pai, ela absorve os ensinamentos através de sonhos e devaneios"?

    Nossa, vi um filme com os mesmos título e atores, mas com história era completamente diferente.