Crítica: Lincoln


Antes de tudo, é bom ter cuidado para não confundir este drama histórico sobre o décimo sexto presidente norte-americano com outro filme recente sobre ele, a fantasia Abraham Lincoln – Caçador de Vampiros. Baseado no livro vencedor do Pulitzer “Team of Rivals: The Genius of Abraham Lincoln”, de Doris Kearns Goodwin, a biografia comandada por Steven Spielberg coloca o estadista para combater um outro tipo de sanguessuga: os escravocratas da região sul dos Estados Unidos.

A história de Lincoln se passa nos últimos meses da Guerra Civil americana, quando o então líder da nação, guiado pelo senso comum, decide abolir a escravidão como estratégia para encerrar o sangrento combate que dividia o país e matou mais de 750 mil soldados. O filme mostra toda a manobra empregada por Abraham Lincoln nos bastidores para conseguir a aprovação desta emenda constitucional pela Câmara, inclusive utilizando de métodos pouco éticos, hoje bastante comuns no jogo político: coação, sofismo e nomeações para cargos públicos. Paralelamente, a vida íntima do presidente, sua relação com a esposa Mary Todd (Sally Field) e os dois filhos – o mais velho interpretado por Joseph Gordon-Levitt – também é mostrada.

Apesar da direção de arte, figurinos e fotografia realizarem um trabalho fabuloso na recriação da época em que a trama se desenvolve, é bom estar atendo ao discurso promovido nas entrelinhas e lembrar que o filme é dirigido por Spielberg, cineasta que nunca escondeu sua propensão pelo “falso” realismo histórico e é um democrata assumido – ele foi um dos maiores doadores da campanha que reelegeu Barack Obama. Embora o diretor tente controlar seus maneirismos, o que não faltam na película são espetadas no Partido Republicano.

Talentoso e extremamente conhecedor do seu ofício, Spielberg consegue transformar temas densos em assuntos palatáveis para o grande público ao acrescentar elementos emocionais, esperança e dramaticidade. Seus personagens são sempre “Davis”, pequenos e aparentemente frágeis diante das “Golias” adversidades. Interpretado de forma magistral por Daniel Day-Lewis – sob uma maquiagem incrível, incorporando os gestuais e até a voz do estadista – o Lincoln de Spielberg não foge à regra, esbanjando carisma com seu jeito rústico e seus “causos” cheios de moral. Membro desde sempre do GOP (“Grand Old Party”, como são coloquialmente conhecidos os republicanos), o presidente só consegue completar seu plano, porque age como um “liberal”, lutando arduamente contra as elites e os membros radiciais do seu próprio partido para garantir a abolição dos escravos.

Lincoln é um projeto pessoal de Spielberg e estava em desenvolvimento há nove anos, esperando pelo seu aval. Se peca como aula de história, ao menos funciona como entretenimento. Envolvente, mesmo com toda sua verborragia, cativa o espectador desde o primeiro momento em que seu protagonista aparece – o presidente vai ao front de guerra levantar a moral das tropas -, onde um Day-Lewis de olhar tenro e contemplativo deixa claro que está interpretando um mito. Recordista de indicações ao Oscar deste ano – concorre em 12 categorias, entre as quais Melhor Filme, Diretor, Ator, Atriz Coadjuvante (Sally Field) e Ator Coadjuvante (Tommy Lee Jones) -, não deve levar os prêmios principais, mas ao menos a estatueta de Lincoln, digo, Day-Lewis está garantida.

(3.5/5)
Lincoln (Idem)
Estados Unidos, 2012 – 150 min.
Direção: Steven Spielberg. | Roteiro: Tony Kushner.
Elenco: Daniel Day-Lewis, David Strathairn, Sally Field, James Spader, Tommy Lee Jones.