Crítica: Django Livre


A esta altura do campeonato, já não é mais exagero afirmar que Quentin Tarantino é um dos cineastas mais significativos e cultuados do cinema atual. O seu discurso singular, autoral e repleto de referencias a cultura pop já rendeu ótimas homenagens ao cinema. Em Kill Bill (2003/2004), Quentin mostrou todo a sua afeição aos antigos filmes de artes marciais, em À Prova de Morte (2007) seu amor pelo cinema B sploitation e em Bastardos Inglórios (2009) alterou o curso da história para prestar uma “singela” reverência as fitas de guerra. Em Django Livre, sua obra mais linear até agora, ele revisita o velho-oeste, gênero pelo qual nutre paixão desde criança.

O western que começa no Texas (fronteira oeste e sul dos EUA) pouco antes da guerra civil americana, bem que poderia ser chamado de “southern”, uma vez que os personagens viajam para o sul do pais, região escravagista onde impera o ódio racial. Django (Jamie Foxx) é um escravo libertado pelo alemão Dr. Schultz (Christoph Waltz, maravilhoso), um ex-dentista eloquente e lisonjeiro que se tornou caçador de recompensas. Schultz precisa de Django para um propósito: localizar três criminosos procurados pela Justiça. Em troca, ele terá sua liberdade.

O objetivo de Django após cumprir este trato é resgatar a esposa Broomhilda (Kerry Washington) das garras do presunçoso Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), proprietário de Candieland, uma fazenda algodoeira onde escravos são treinados para participar de lutas ferozes conhecidas como Mandigo – uma espécie de MMA ultra-violento. Sentindo-se responsável pelo escravo recém-alforriado, Schultz resolve acompanhá-lo nesta perigosa jornada que guarda muitas surpresas para ambos.

O nome do personagem foi escolhido em referência a Django, produção italiana dirigida por Sergio Corbucci em 1966 estrelada por Franco Nero, que faz uma pequena participação no longa. Outras alusões ao faroeste spaghetti estão nos zooms forçados e nas deliciosas faixas do compositor Ennio Morricone – são quatro, inclusive uma inédita -, usual colaborador de Sergio Leone, diretor que celebrizou o (sub)gênero. Tarantino, que têm um gosto bem peculiar para música e faz questão de transferi-los para suas películas, ainda conseguiu inserir hip-hops e souls na trilha sonora com um resultado anacrônico interessante.

Vencedor de dois Globos de Ouro (Melhor Roteiro e Melhor Ator Coadjuvante), Django Livre recebeu cinco indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original, Fotografia, Edição de Som e Ator Coadjuvante (Christoph Waltz). Embora Waltz tenha um desempenho memorável tão intenso quanto o seu Coronel Landa de Bastardos Inglórios (por qual foi premiado), Leonardo DiCaprio também merecia ser lembrado pelo seu odioso e arrogante Calvin Candie. Samuel L. Jackson no papel do subserviente e ardiloso Stephen também não fica atrás, roubando a cena no epílogo do filme. A Academia de Hollywood, infelizmente, esnobou os dois.

O filme vêm sendo acusado por parte da crítica internacional de ser desrespeitoso e ofensivo. Pura bobagem: quem conhece a filmografia de Tarantino, sabe que ele tem apreço por retratar situações históricas, porém usa e abusa da liberdade poética para reescrevê-las a seu bel prazer, no intuito de trazer o impacto desejado para suas obras. Para isso, não hesita em demonstrar os cruéis maus-tratos aos quais eram submetidos os escravos nem ridicularizar o racismo em sequências onde o preconceito funciona a favor do humor – em determinado trecho, uma Ku Klux Klan desorganizada que não consegue enxergar sob os capuzes tenta capturar o protagonista.

Se Django Livre toca em assuntos delicados, causar polêmica ou reflexão não estão em sua agenda, embora involuntariamente atinja estes objetivos. O diretor está mais preocupado em fazer o que sabe de melhor: entreter a plateia com uma boa história de vingança recheada da sua já habitual violência gráfica (advinda aqui de sanguinolentas e bem conduzidas cenas de tiroteio) e seus personagens riquíssimos, capazes de diálogos tão mordazes quanto divertidos. Nesta sua ambiciosa incursão no western, gênero tipicamente norte-americano, Tarantino acerta no alvo com precisão. John Ford, Sergio Leone e Sam Peckinpah, onde quer que estejam, devem estar orgulhosos.

(4.5/5)
Django Livre (Django Unchained)
Estados Unidos, 2012 – 165 min.
Direção e Roteiro: Quentin Tarantino.
Elenco: Jamie Foxx, Christoph Waltz, Leonardo DiCaprio, Kerry Washington, Samuel L. Jackson.

  • furia

    será que só eu não achei esse filme lá essas coisas toda?

    • Leandro

      esse filme é demaissssssss

  • Demas

    Ótima crítica para um ótimo filme…
    Parabéns!

  • Paulo

    Parabéns pela critica e pelo site…
    nota honesta assim como foi a do Hobbit…
    Vejo criticas por ai que cheiram a OVO podre!
    Já as do Getro são dignas.

  • "O filme vêm sendo acusado por parte da crítica internacional de ser desrespeitoso e ofensivo. Pura bobagem"

    Você não pode dizer que é uma bobagem algo que ofende outra pessoa e não você. O fato de você não enxergar a ofensa pode ter diversos motivos, um deles é que você não faz parte do grupo ofendido.

    • Olá, Tatiana. Posso ter soado leviano, mas a intenção não era essa. Não sei se você já viu o filme, mas as alegações contra ele se revelam exatamente ao contrário. Além do que, o grupo que estava atacando a obra, fazia isso sem ao menos tê-lo assistido.

      Mas preciso dizer que este patrulhamento ostensivo em prol do "politicamente correto" me irrita.

    • Rogel

      O grupo que atacou a obra eram, brancos falando que o filme era racista, não era nem negros falando, sendo q o filme faz uma critica ao racismo, mostra q a escravidão não era aquela coisa "bonita" que víamos nas novelas da globo, e ele cria um herói negro.

      Agora dizer q o filme desrespeita por q ele usa "A Palavra com N", a me desculpa mas É PURA BOBAGEM!!!

  • Gabriel

    realmente o filme foi bom
    BUT duas estrelas pra cloud atlas? até joão e maria teve três
    lamentavel :/