Crítica: A Viagem


A cada novo filme dos Irmãos Wachowski que eu vejo, tenho mais certeza que Matrix foi um golpe de sorte. Incensados como os papas da cybercultura do século XXI desde que a saga de Neo chegou aos cinemas em 1999, a dupla nunca mais acertou o passo. Matrix Reloaded (2002) e Matrix Revolutions (2003) ficaram muito aquém do original e Speed Racer (2008) foi um desastre completo. Nem mesmo os longas produzidos por Andy e Larry, ou melhor, Lana Wachowski – o cineasta se submeteu a uma cirurgia para mudança de sexo em 2012 – apresentaram grandes resultados, vide V de Vingança (2005) e Ninja Assassino (2009). Em A Viagem, dirigido em parceria com o alemão Tom Tykwer (Corra, Lola, Corra), os irmãos chegam ao fundo do poço arruinados pela própria soberba: o longa, adaptação do intrigante livro de David Mitchell – considerado “infilmável” por muitos cineastas – é um teste de resistência ao sono.

O enredo alterna seis épocas distintas que vão desde 1840, passando pelo presente até chegar a um futuro pós-apocalíptico sem data definida. Em 1849, uma história de escravatura se desenrola; em 1946, um músico homossexual tenta esquecer seu amante ajudando um maestro a compor uma obra-prima – a Cloud Atlas do título original -; em 1973 acontece uma investigação jornalística sobre usinas nucleares; em 2012, um grupo de velhinhos internados em uma clínica de repouso elaboram um plano de fuga; em 2144, num lugar batizado de Neo Seul, uma operária se transforma na líder de uma revolução, após ser salva do trabalho escravo a qual era submetida e, finalmente, milhões de anos no futuro, um grupo de pacatos aldeões auxilia uma das últimas descendentes da antiga civilização a encontrar as respostas que poderão salvar o que resta da humanidade.

Enquanto o romance de Mitchell conta as histórias em ordem cronológica, indo do passado ao futuro e depois retornando, a super-produção dos Washowski parece um coelho ensandecido, saltando constantemente de um tempo para outro. No intuito de criar uma ligação entre eles, o mesmo elenco – Tom Hanks, Halle Berry, Hugh Grant, Jim Sturgess, Hugo Weaving, Ben Whishaw, Jim Broadbent, Susan Sarandon, Doona Bae, Keith David, David Gyasi e Zhou Xun – foi utilizado nas seis histórias, interpretando papeis diferentes, importantes ou não, dependendo da trama.

Entretanto, a falta de linearidade não é o maior prejuízo de A Viagem. Ao propor um mosaico de gêneros distintos – um drama histórico, um romance proibido, um thriller conspiracionista, uma comédia “monty pythoniana” e uma ficção cyberpunk -, o filme têm seu ritmo afetado. E muito. Principalmente porque algumas tramas soam mais interessantes que outras, com personagens mais envolventes e/ou mais desenvolvidos. Não há uma elo concreto ou mistério a ser desvendado que una os segmentos e isto pode frustrar ainda mais o espectador desavisado. A conexão é metafísica, sugerindo vidas passadas e relações cármicas atemporais (baseando-se no princípio da Ação e Reação), onde um ato pode ter consequências no passado, presente e/ou futuro.

Ao misturar religião, espiritualidade, filosofia e até teoria do caos, os Washowski tentam repetir a fórmula usada em Matrix. Sem sucesso, evidentemente. O longa foi um retumbante fracasso nas bilheterias norte-americanas: tendo custado cerca de US$ 150 milhões, arrecadou menos de 20% deste montante. Salvam-se nesta ambiciosa e corajosa produção – preciso reconhecer – o trabalho primoroso de fotografia e direção de arte, belíssimos e coesos em todas as épocas em que o filme se desenrola.

Não bastasse todos os problemas da fita, ainda temos este funambulesco título nacional. Díficil saber se o objetivo da distribuidora era fazer alusão a novela espírita de mesmo nome exibida pela Rede Globo nos anos 1990 ou uma referência a expressão utilizada por quem está sob efeito de drogas psicotrópicas. Seja lá qual foi a intenção, nada ajuda Cloud Atlas: Com quase três horas de duração, haja paciência para “uma viagem” tão longa.

(2/5)
A Viagem (Cloud Atlas)
Estados Unidos, 2012 – 165 min.
Direção e Roteiro: Andy Wachowski, Lana Washowski e Tom Tykwer.
Elenco: Tom Hanks, Halle Berry, Jim Sturgess, Hugo Weaving, Hugh Grant, Ben Whishaw.

  • Washington

    Consegui assistir até o fim e não entendi nada!!!

    • Enio

      Cada um tem suas limitações… paciência!

  • O filme é otimo, um dos melhores. No triller mesmo diz o proposito do filme

  • Jetro

    Com certeza a maior bomba de 2012. Quero minhas 3 últimas horas de volta.

  • Leonardo Schumann

    As quase três horas passaram voando. A conexão entre as histórias foi sutil e se deu ao longo do filme, o que eu achei que só aconteceria no final, as interpretações e a maquiagem estão fantásticas e o filme cumpre o propósito, passando a mensagem de que o comodismo é a nossa pior arma.

    Apenas não gostei dos falsos asiáticos e do título nacional, o qual nem vou comentar. Mas vale muito a pena e recomendo que assistam para tirarem as próprias conclusões.

  • Diego

    Sério que a maquiagem foi boa? Não sei oque foi pior na minha opinião, se foi a "koreanização" dos personagens ou se foi fazer a Doona Bae ficar ruiva com sardas e olhos verdes. Acho que 3 histórias salvam nesse emaranhado de nada com nada (1973, 2012 e 2321~2346) 2012 principalmente por ver o Hugo Weaving como Noakes.

  • mari

    Se durasse menos seria ótimo,tinha horas que eu pensava que iria acabar e que iria ser bom mais continuava e continuava…

  • Gabriel

    Genial

  • Noname

    Fico triste em ver que alguém não gostou.

  • wilson

    o filme só é bom para quem tem um grau de conhecimento mais apurado, ou seja minoria..

  • Regina

    Excelente filme, aliás, como tudo o que o Tom Hanks faz.
    Não recomendo crítica nenhuma antes de ver o filme. Wilson tem razão, só uma minoria é capaz de ver a excelência do filme.