Crítica: Os Penetras


Sempre encaro maus bocados para extrair leite de pedra e conseguir produzir um texto sobre um filme que não é ruim a ponto de ser desprezível e nem bom o suficiente para inspirar alguns elogios. Mas, ainda que nos trancos e barrancos normalmente alcance um final feliz na minha tarefa, Os Penetras elevou o grau de dificuldade a um patamar novo. Nesse sentido, bem mais difícil do que encontrar o ponto de partida da crítica, é descobrir o que exatamente pretendia Andrucha Waddington nesta bagunça autointitulada comédia e que, para manter o nível das produções nacionais do gênero lançadas neste ano, explora pobremente o potencial de dois bons humoristas: Marcelo Adnet e Eduardo Sterblitch.

Explorando o filão de comédias bromance, além de se inspirar em Penetras Bons de Bico e tomar emprestado o ritmo agitado e desregrado de filmes como Uma Noite fora de Série, com o qual também flerta com o tema de troca de identidades, o roteiro escrito por Marcelo Vindicatto baseado em história de Waddington sequer consegue sedimentar a amizade entre o trambiqueiro Marco Polo (Adnet) e o desiludido Beto (Sterblitch), que dirá então pensar em situações engraçadas que extraiam bons momentos da inusitada dupla. Assim, empurrando goela abaixo do espectador um primeiro encontro mal acabado, Marcos se vê obrigado a impedir o suicídio de Beto que anteriormente havia se esgueirado no city tour sabe-se lá como, pois não pagou, ou mesmo porque iria tomar aquela atitude.

O roteiro erra feio na construção de seus personagens e derrapa miseravelmente no bromance. Beto, cuja maior qualidade é parecer com um ator inglês que beijou a Hebe, é um daqueles sujeitos tão ingênuos a ponto de caminhar pelo calçadão do Rio com a carteira entupida de dinheiro, prestes a distribuir um trocado ao primeiro que pedir. Emocionalmente desequilibrado, característica que Eduardo Sterblitch explora com mediano sucesso, o personagem parece implorar por uma piada que não se resuma a álcool ou sexo e só a encontra ao rever a sua Lúcia. Enquanto isso, Marco Polo é um tremendo babaca que não hesita antes de filmar a mulher com que transou, nem tenta esconder seus planos de “depenar Beto” e fugir com quem acredita ser a mulher do cara, interpretada por Mariana Ximenes. Prato cheio para que o roteirista invente um arco dramático reconciliatório jamais claro para justificar a mudança anunciada a plenos pulmões para Beto próximo do final.

Falhando no instante em que a história deveria deslanchar, a narrativa não convence o espectador em inúmeras situações. Porém, é no humor (ou a falta dele) o maior pecado cometido por Waddington: desperdiçando Adnet e Sterblitch, além de um elenco coadjuvante variando entre regular e o bom, o cineasta produz uma única cena que é verdadeiramente hilária. Trata-se daquela envolvendo uma dupla de policiais corruptos e um certo própolis cujo nonsense compensa a falta de lógica na sequência – observe que Adnet, apesar de ingerir a substância, é o único a não ficar ligado, mantendo o mesmo comportamento que teria se estivesse sóbrio.

Contando com a sensacional fotografia de Ricardo Della Rosa – a melhor coisa do filme -, cuja paleta de cores quentes e a superexposição do quadro na contraluz conferem uma identidade deslumbrante à cidade maravilhosa, e o céu carioca capturado após o pôr do sol mereceria uma moldura de tão belo que é, Os Penetras não chega a ser um desastre como Totalmente Inocentes e Até que a Sorte nos Separe, mas acaba, por comparação, no mesmo nível de E aí… Comeu?. Quem sabe eles acertam na inevitável continuação.

(2/5)
Os Penetras
Brasil, 2012 – 95 min.
Direção: Andrucha Waddington. | Roteiro: Marcelo Vindicatto
Elenco: Marcelo Adnet, Eduardo Sterblitch, Mariana Ximenes, Luis Gustavo, Stepan Nercessian.

  • ricardo

    Eu queria saber, quem foi que disse para o ADNET, que ele tem algum talento para ator. Porque o cara é péssimo, é forçado e sem carisma algum. Fiquei impressionado com o Sterblitch, acabou sendo a surpresa, ele se adaptou relativamente bem às telonas (para um cara que veio de um programa de merda como o pânico e algumas peças meia boca). O filme em si, é uma porcaria com moldes de pornochanchada, clássico em qualquer filme brasileiro. Mas pelo menos chamou mais a atenção do que aquele filminho feito para deficientes mentais chamado "Até que a Sorte nos Separe" ou aqueles pornozinhos lights do Bruno Mazzeo.