Crítica: O Hobbit – Uma Jornada Inesperada


Nove anos após a exibição do último filme da trilogia Senhor dos Anéis nos cinemas e o diretor/roteirista Peter Jackson nos convida a retornar à Terra Média em O Hobbit – Uma Jornada Inesperada, para viver novas aventuras. Ou melhor, “velhas” aventuras, uma vez que o filme é uma adaptação de “O Hobbit”, obra literária de J. R. R. Tolkien anterior a Senhor dos Anéis. A trama, ambientada no mesmo universo, se passa 60 anos antes da destruição do Anel de Sauron na Montanha da Perdição. No novo longa, primeira parte de uma nova trilogia, descobriremos como Bilbo, o tio de Frodo, encontrou o maligno objeto.

O filme começa reproduzindo cenas iniciais de Bilbo Bolseiro (Ian Holm) em “A Sociedade do Anel”, para em seguida voltar 60 anos no passado, quando ele (agora interpretado pelo ótimo Martin Freeman) era apenas um inocente e acomodado hobbit que não fazia ideia das grandes proezas que o aguardavam. “Convidado” pelo mago Gandalf (Ian McKellen), ele se junta a valente comitiva formada por 13 anões, cujo objetivo é recuperar o tesouro roubado e a terra perdida por eles, usurpada pelo maligno dragão Smaug. Durante esta jornada até a Montanha Solitária, lar dos anões, enfrentarão os mais diversos inimigos desde orcs, gigantes, lobos, trolls, até uma série de contratempos.

O grupo também encontra personagens já conhecidos do espectador como Elrond (Hugo Weaving), Galadriel (Cate Blanchett) e Saruman (Christopher Lee) – que só foram criados muito tempo depois da publicação de O Hobbit; inseridos na trama para criar uma “ponte cinematográfica” entre as trilogias. Referências ao retorno de Sauron disparadas aqui e ali, e a presença do vilão Azog, um malvado orc albino também não estão no livro, outras “cortesias criativas” propostas pelo diretor Peter Jackson e os roteiristas Philippa Boyens, Fran Walsh e Guillermo del Toro, para tornar o longa acessível ao grande público.

Para quem conhece a obra do britânico Tolkien apenas das versões cinematográficas, algo que pode incomodar no novo filme é a presença do humor (pastelão), mais frequente e infantilizado – o autor escreveu a obra em 1937 pensando em seus filhos pequenos. Apesar do roteiro inserir um tom sombrio à história (que não existia originalmente) para aproximá-la da Trilogia do Anel, o longa não poupa a plateia das muitas comilanças e trapalhadas que estão presentes no livro.

Em entrevistas, Jackson justificou a divisão do livro em três filmes porque gostaria de manter-se fiel ao material original. Entretanto, o maior pecado de Uma Jornada Inesperada é justamente sua duração excessiva: 2 horas e 49 minutos. Ao contrário de O Senhor dos Anéis onde os corriqueiros flasbacks dentro de flashbacks e personagens chatos e caricatos – como o flautista Tom Bombadil – foram limados da adaptação, aqui, parece que a “política social e cronológica” foi (in)justamente inversa, com figuras exageradas ganhando espaço excessivo – vide Radagast, um dos magos da ordem de Gandalf – e trechos sem muita importância para a narrativa – a batalha entre gigantes de pedras – se prolongando demais. Estas decisões nos fazem questionar a necessidade de uma trilogia. O objetivo é manter fidelidade a obra de Tolkien ou faturar mais alguns milhõeszinhos?

Independente da resposta, é ótimo poder desfrutar novamente deste universo fantástico. Os efeitos visuais evoluíram bastante desde a nossa última visita à Terra Média e agora as texturas, cenários e criaturas digitais estão ainda mais realistas, especialmente em 3D. As cenas de ação são empolgantes e o elenco está bem a vontade em seus papeis, principalmente Ian McKellen como Gandalf, Martin Freeman como Bilbo e Richard Armitage como Thorin, o líder dos anões. As cenas entre os dois primeiros estão entre as mais divertidas, funcionando ora como alívio cômico, ora como alicerce dramático para a história. Méritos também para Andy Serkis, “interpretando” um Gollum ainda mais perturbado e ambíguo.

Com O Hobbit – Uma Jornada Inesperada, Peter Jackson fez História. Não pelo fato de estar adaptando para às telas uma das mais cultuadas obras literárias do século XX, e sim por rodar sua película com a nova e revolucionária tecnologia de 48 quadros por segundo – exibidos em salas selecionadas – ao invés dos atuais 24 quadros, usados desde a aurora da sétima arte. A novidade (perturbadora), que permite ver um filme de forma mais nítida e realística, vêm sendo comparada aos adventos do cinema falado e do cinema a cores. Exageros à parte (ou não), mais um bom motivo para você novamente se interessar pela Terra Média.

(3.5/5)
O Hobbit – Uma Jornada Inesperada (The Hobbit: An Unexpected Journey)
EUA / Nova Zelândia, 2012 – 169 min.
Direção: Peter Jackson. | Roteiro: Fran Walsh, Philippa Boyens, Guillermo Del Toro e Peter Jackson.
Elenco: Ian McKellen, Martin Freeman, Richard Armitage, Graham McTavish, William Kircher.

  • Felipe P.

    Parabéns pela crítica!
    Gostaria de saber um pouco mais sua opinião sobre como tecnologia 48FPS ficou no filme…

    Abraços!

    • Felipe, assisti ao filme em exibição "normal" 3D. O último parágrafo foi apenas uma observação, pretendo vê-lo neste final de semana em 48 HFR. Grato pelo elogio.

      • Felipe P.

        Perfeito. Ficarei atento então.
        Obrigado e sucesso!

    • ficou MUITO BOA…qro dizer, eu nem sabia desta nova tecnologia (tentei ao maximo me afastar de tudo relacionado ao filme para evitar spots) e mesmo assim foi nitido a qualidade das imagens. Fui na pré-estreia, e quero muito voltar e levar minha esposa.

  • Cristina Rocha SBT

    Eu amei esse filme Getro
    vc é muito lindo

  • Edu

    Getro, depois posta aqui suas impressões sobre o filme em 48 quadros por segundo, to bem curioso.

  • Raul

    onde posso assistir em 48 quadros?

    • Consulte a programação de sua cidade. Apenas (poucos) cinemas estão exibindo a versão 48 HFR.

  • edmo

    Eu já li tanto os hobbits quanto o senhor dos aneis. Gostei do filme e quem é cinéfilo verdadeiro duas horas e 45 minutos é o mesmo que trinta minutos…
    muito bom e fiel a que quem gostou da trilogia senhor dos aneis. Recomendo demais.

  • Sara

    Excelente crítica, Getro!
    Eles realmente deram uma "esticada" em cenas bobinhas… achei um pouco cansativo 😛
    De qualquer forma, o retorno ao universo do Tolkien vale a ida ao cinema… quando os anões cantaram na casa do Bilbo eu fiquei arrepiada!! Muito bom!!!!