Crítica: Marcados para Morrer


Cursando matéria eletiva de cinema na faculdade de direito, o patrulheiro da polícia de Los Angeles Taylor (Jake Gyllenhaal) não desgruda da câmera digital para registrar avidamente o cotidiano da ronda nos perigosos bairros da cidade e certos procedimentos internos, como a atribuição das zonas aos oficiais, para finalizar uma atividade do curso. Junto do parceiro e melhor amigo Zavala (Michael Peña), desde logo ele refere a si mesmo heroica e vaidosamente como a “conta não paga”, a mera consequência da proliferação de violentas gangues que afligem a segurança dos cidadãos de bem. Ele não tem papas na língua e nem falsa modéstia, xinga inconscientemente, é brincalhão em demasia e debocha do que julga pitoresco durante seu turno; mas principalmente, é completamente dedicado à digna atividade que presta.

A partir dele, e por tabela do seu parceiro, Marcados para Morrer faz um ótimo trabalho em retratar positivamente o imprescindível trabalho policial. Nesse recorte da realidade, o mundo criminal assume apenas os tons preto e branco em que policiais caçam bandidos e zelam pelo bem-estar social. Não há o fantasma da corrupção e nem o chefe da repartição está em conluio com alguma gangue de traficantes; todos ali são bons e honestos trabalhadores, e mesmo que alguns revelem um jeitão embrutecido após anos de trabalho ou exagerada imaturidade, poderíamos confiar cegamente que eles realizariam seu trabalho da melhor forma. Evitando parecer panfletário, a narrativa de David Ayer, especialista no gênero policial – tendo escrito S.W.A.T. e Dia de Treinamento e dirigido Os Reis da Rua -, foca-se mais nas pessoas do que nas missões e é bem sucedido na abordagem quase documental empregada.

Com uma estrutura bastante similar à de Polissia, a narrativa explora tanto a vida particular dos patrulheiros, e os relacionamentos amorosos e familiares revelam mulheres conscientes do risco apresentado pelo trabalho policial e receosas de que o seu medo maior venha se concretizar algum dia, quanto aquilo com que Taylor e Zavala se deparam na ronda diária, e nunca existe um dia igual ao outro. As vezes chamados para prender um traficante que perturbava a paz da vizinhança, noutras para auxiliar um colega em dificuldade, a dupla encara situações corriqueiras, inusitadas e chocantes, além de lidar com a frustração de não poder explorar o trabalho investigativo, tarefa incumbida a detetives.

Essa abordagem acerta ao cumprir a dupla função de documentar aspectos procedimentais inerentes ao serviço – repare a coordenação entre viaturas, helicóptero e a central policial – e de humanizar aqueles na ponta que registram a ação em seu aspecto mais cru e brutal. Funcionando inclusive como bom exemplar do subgênero buddy cop, a narrativa recorre ao carisma e jovialidade de Jake Gyllenhaal e à responsabilidade descontraída de Michel Peña para estabelecer a fundamental química entre a dupla, e vê-los crescer diante de nossos olhos à medida em que enxergam a verdadeira dimensão da maldade humana é um dos muitos prazeres proporcionados pela narrativa.

Mas nem tudo funciona bem, e o roteiro introduz um caso principal descartável que busca conferir um fechamento à história, apesar de somente ferir a lógica visual da narrativa. Assim, se já não bastasse Taylor e o seu hábito de cineasta, recorrendo até a câmeras afixadas no bolso do uniforme, há ainda a gangue hispânica que documenta o planejamento e execução dos crimes, culminando em uma sequência passada na fronteira mexicana que, usando a visão noturna, registra uma ordem do chefe de um cartel de drogas. E embora esta fizesse sentido caso a narrativa fosse convencional, não deixa de intrigar a falta de uniformidade entre as histórias, levando o público a se perguntar quem filmou aquela cena. Ademais, ao ouvir o chefe da já citada gangue gritando para desligar a câmera, é difícil não torcer o nariz uma vez que naquele momento ninguém estava com o aparelho em mãos.

Abusando da câmera subjetiva – infelizmente, um mal necessário -, que acaba provocando imagens tremidas e as vezes poluídas, de cortes secos e de uma fotografia suja cheia de flares, mas adequada à proposta narrativa, Marcados para Morrer é um bem-vindo chacoalhar no gênero policial com dois ótimos atores e uma abordagem visceral e incisiva como não se via há um bom tempo.

(4/5)
Marcados para Morrer (End of Watch)
Estados Unidos, 2012 – 109 min.
Direção e Roteiro: David Ayer.
Elenco: Jake Gyllenhaal, Michael Peña, Natalie Martinez, Anna Kendrick, Frank Grillo, Cody Horn.

  • ricardo

    Vou ser bem sincero, adorei o filme. Mesmo quem não gosta do estilo, não vai nem sair para o banheiro, pra poder acompanhar a história. Nota altíssima por aqui e no IMDB, e não é a toa, é um ótimo filme.